Revivências de mínimo proveito
Mal encerra-se a questão da nota do Exército publicada à revelia de consulta ao presidente da República, agora discute-se se a foto atribuída ao jornalista Vladimir Herzog no cárcere é dele ou de outra pessoa, supostamente um padre canadense também preso político da época. Se, no varejo, pode ter havido um erro (quanto a ser ou não Herzog), no atacado são muitos os casos idênticos de presos políticos em situação deprimente e cujas fotografias tornaram-se de domínio público depois da ditadura. Não faz, portanto, diferença saber-se agora se houve confusão de fotos, porque o trato a presos políticos no período de exceção, que durou cerca de 20 anos, não era certamente de candura. Quarenta anos são decorridos desde o longínquo 1º de abril de 1964 e foi no amanhecer desse dia, e não na véspera, que a nação tomara conhecimento da tomada do poder pelos militares. Esse tempo é suficiente para se esquecer ressentimentos e deixar torturados e mortos em paz. Os veículos de comunicação também foram duramente afetados pelo regime, porque houve prisões de profissionais de imprensa, outros perderam emprego, Herzog foi encontrado no estado que todos conhecem, censores policiaram redações, mas esta é uma página virada da história. A memória do que passou deve servir como alerta para um 'não' solene aos regimes totalitários, mas interessa pouco ao Brasil de hoje reviver amargos momentos e reeditar fotos e relatos que na época (e no fechar das cortinas do regime) foram tão chocantes. Certamente que familiares dessas pessoas violentadas nos cárceres e as tantas que desapareceram não apreciam ver fotos dos seus, em tão chocantes posições, e se no momento não há motivo para se temer e não é o caso um eventual retorno de regime de força, não há razão para trazer fatos velhos ao palco e repetir tristes cenas de um passado que será melhor não rememorar. De nada servirá agora discutir questões irrelevantes, quando se sabe que os algozes do sistema, de fato, pegaram pesado e que, no geral, esses anos de chumbo foram de muita tortura aplicada a presos políticos e de muito terrorismo intimidatório. É de mínimo proveito realimentar tais lembranças, assim como não se alterará a verdade só porque alguns tentam abrandar tristes fatos ocorridos dentro dos cárceres naquele período cinzento.





