Revitalização e longevidade
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de agosto de 2014
Humberto Yamaki 
Pesquisas recentes tratam da existência de relação entre desenho urbano e longevidade. Uma cidade onde os moradores vivem mais é aquela em que existem espaços atrativos e áreas verdes, convidando a passeios ao ar livre. Lugar em que os moradores possam ter uma atitude positiva em relação à própria comunidade (Takano, 2002). Outros estudos tratam como essenciais aos idosos: a segurança, conforto, legibilidade, além de espaços familiares e reconhecíveis nas cidades Burton, 2006).
Um premiado centro de reabilitação de idosos nos Estados Unidos reconstruiu um trecho do centro histórico da cidade. O mobiliário é tradicional e partes do piso da área social reproduzem o padrão do petit pave em leque. Procura assim recriar espaços confortáveis, familiares e reconhecíveis. De fato, o piso é um dos principais elementos definidores do caráter de centros históricos e que ficam fortemente gravados na memória.
Visitar o centro histórico de uma cidade deveria ser uma experiência única. Caminhar pelas calçadas antigas, reconhecer o comércio tradicional através da edificação, letreiros originais e proprietários personagens, flanar no ritmo dos moradores locais. O Calçadão de Londrina, o primeiro do interior do Paraná, é um desses lugares históricos de forte caráter.
A correspondência da Coordenação do Patrimônio Cultural da Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, de 26 de março de 2014, informa que: "A área do Calçadão existente, compreendida entre a Avenida Rio de Janeiro e Minas Gerais e que se prolongam na Praça Willie Davids até o limite da Alameda Manoel Ribas, compõe a área envoltória do Cine Teatro Ouro Verde - bem tombado pelo Estado do Paraná. Devem ser mantidas as suas características e unidade paisagística original, identificada especialmente pelo revestimento em petit pave com motivos geométricos e pelo mobiliário urbano". E, complementa: "A CPC sugere, ainda, a manutenção desta unidade paisagística ao longo da Avenida Paraná até a Avenida São Paulo, com a extensão da área de proteção do Cine Teatro Ouro Verde pelo instrumento de tombamento municipal".
Reafirma, portanto, a obrigação de manutenção e preservação do que restou do Projeto Novo Centro (1977) no quarteirão do Ouro Verde. Indica ainda o tombamento municipal no trecho entre as avenidas Rio de Janeiro e São Paulo, fortalecendo a unidade visual do conjunto. Entende-se aqui como unidade paisagística original, o piso em petit pave de pedras brancas e pretas de motivos geométricos e o mobiliário urbano, tais como: luminárias em forma de araucária, as floreiras, lixeiras e confortáveis bancos de madeira, além dos marcantes quiosques.
Surpreendentemente, o trecho entre a Rio de Janeiro e a São Paulo, que estava em ótimas condições, foi destruído recentemente. O tombamento municipal não conseguiu chegar a tempo. Doze anos atrás, desenvolvemos o Plano Diretor de Preservação do Patrimônio Cultural de Londrina e a Minuta da Lei de Preservação (Promic). Ficou em discussão na Câmara e outras instâncias durante mais de uma década. Mais tempo, todavia, parece ser necessário para a efetiva conscientização e mobilização acerca da importância da preservação do patrimônio histórico cultural na cidade.
Uma praça construída há alguns anos na Gleba Palhano reproduz um trecho do Calçadão, com o piso em petit pave e luminárias em forma de araucária. Foi capa de caderno imobiliário recente da Folha de Londrina. Não se vê no local, pedras soltas nem luminárias quebradas e tampouco ouvimos reclamações. A manutenção é um dos princípios-chave para a qualidade de espaços públicos.
Quem sabe, num futuro próximo, cientes de sua importância para o resgate do caráter histórico do centro, não possamos reconstituir o petit pave do Calçadão inteiro. Quarteirão a quarteirão, a partir do Cine Teatro Ouro Verde. Fazer o processo inverso dos últimos anos, uma revitalização reversa. Resgatar a memória do chão e das edificações, elo possível à longevidade.


