Revitalização de Praças
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de agosto de 2002
Humberto Yamaki 
As recentes discussões acerca do ''Projeto de Lei que dispõe sobre a realização de benfeitorias na Praça Nishinomiya em Londrina'', nos conduzem a uma série de reflexões relativas aos chamados Projetos de Revitalização de espaços públicos. Construída em 1986, a praça em questão, é sobretudo um espaço símbolo da co-irmandade Londrina/Nishinomiya. Reconstrução de uma paisagem imaginária, traz referências espaciais das duas culturas. A praça do Aeroporto é um dos raros exemplos de espaços públicos projetados na cidade, e de uso intenso.
As Praças possuem significado maior enquanto espaços vazios, portanto livres de edificações. Construir sanitários e vestiários resultam no surgimento de pontos obscuros e inseguros. Vale lembrar os sanitários públicos existentes na praça Marechal Floriano, praça da Quintino Bocaiúva, praça Rocha Pombo e nas margens do Igapó, todos muito pouco convidativos e de manutenção precária. No caso da praça Nishinomiya, os sanitários do Aeroporto estão muito próximos, seguros e limpos, como alternativa recomendável. O mesmo pode-se dizer sobre alambrados e cercas que privatizam espaços que deveriam ser de livre acesso.
Correr, pular, pisar na grama, conversar, gritar, observar pessoas, ver o por do sol, subir nas árvores, escalar o morro, escorregar, entrar na água, brincar na cascata ou nada fazer. Para as crianças, brincar é um ato de criar, inventar. Os play-grounds padrão, com brinquedos de usos pré-definidos, não incitam a criatividade e talvez não combinem com todos os espaços públicos abertos.
Numa região de clima agressivo como o nosso, sombra e água são componentes essenciais para incrementar a amenidade de espaços públicos. As árvores plantadas na praça Nishinomiya, de maneira intencional, acompanhando o único e sinuoso banco, projetam, 16 anos depois, uma generosa sombra.
Ora sonoras, ora luminosas, ora simplesmente água, as fontes eram equipamentos comuns nas nossas cidades. Recuperar a praça Nishinomiya, é fazer voltar a funcionar a cascata, que através do movimento e som da água, tornava suportável as longas tardes de verão.
A iniciativa de preservação da torre antiga do Aeroporto de Londrina pela Infraero, é importante por se tratar de um artefato utilitário. Subverte assim a lenda de uma Londrina nova, onde não existe história, portanto não existe nada a preservar. Sabe-se no entanto que o Patrimônio deve ser em princípio, mantido no próprio local. Desmontar a torre, e reconstruir sobre uma base baixa a poucos metros dali como mini-museu, merece ser reconsiderado. Tende a ser subutilizado e assim contribuir a uma posterior degradação maior do local. Re-uso digno seria utilizar como torre símbolo da futura Tecnópolis, ou mesmo um mirante/torre vigia num dos parques e lagos da cidade. O uso como Torre, imponente e visível, como convém a uma obra a ser preservada.
Há muito, a sutileza e comedimento deixaram de ser virtudes nas propagandas em áreas públicas. Sobrevivem em alguns cantos da cidade, antigos bancos em granitina, com inscrições de nomes de comerciantes e famílias que fizeram a doação, de maneira silenciosa porém marcante e duradoura.
Ainda que necessário o uso de patrocínio para recuperação de espaços, mesmo sendo de acordo com o Código de Posturas, a publicidade e propaganda grátis durante cinco anos, como é sugerida no Projeto de Lei, merece ser reavaliada.
No momento em que a cidade põe em pauta as discussões sobre a poluição visual em edificações privadas, não convém a liberação de publicidade em praças ou espaços públicos. Placas de publicidade irregulares pontuam hoje a praça Nishinomiya e outros espaços livres da cidade.
Em abril deste ano, atendendo à solicitação da Prefeitura e da Câmara Municipal, entreguei projeto de recuperação da Praça Nishinomiya, a tempo da vinda da comitiva da cidade-irmã. Além disso, a recente iniciativa da Prefeitura, no trabalho de manutenção de 19 Praças na cidade, indica um novo e positivo caminho.
Finalizando, apesar da dúvida sobre a eficácia da legislação enquanto mecanismo de recuperação de espaços públicos, fica a sugestão de um Projeto de Lei: ''Dispõe sobre a realização de benfeitorias em todas as praças da cidade, visando resgatar a história, criar espaços humanizados que estimulem os sentidos, com identidade, portanto não iguais umas às outras, sem equipamentos desnecessários, sem poluição visual, seguros e responsivos, visando a criar no cidadão o senso de topofilia - amor ao lugar.''
HUMBERTO YAMAKI é arquiteto em Londrina.


