Revertere ad locum tum
Eis uma frase que sempre me impressionou: Revertere ad locum tum! Gravada nos portões de entrada das necrópoles, parecia ter o objetivo de mostrar a efemeridade do ser humano e que sua transposição nos colocaria enfim como iguais, num lugar onde ninguém, por mais poder que houvesse amealhado em vida, poderia investir-se de posição diferente da determinada pelo destino.
A autoridade emanada da sentença latina pressupõe o respeito necessário à memória dos que se foram e soa como advertência para os que aqui permanecem ainda, lembrando-os da inevitabilidade do fim e da perpetuidade da obra.
Zelar pelo lugar sagrado de depósito das relíquias restantes de uma vida e de uma história e atender as famílias em seus momentos de dor mais profunda causada pela perda de um ente querido, não pode ser considerado apenas como mais um trabalho, mas como um sentimento, pois pessoas que se dedicam a acolher, consolar e tomar todas as providências necessárias para que se rendam as últimas homenagens a quem se gosta, dedicam-se a um sacerdócio.
Concordo que, na maioria das vezes, a escolha da profissão não ocorre voluntariamente, mas por circunstâncias e contingências que atingem a todos. Porém, só permanecem aqueles que, possuidores das qualidades e dos talentos de caridade, compreensão e desprendimento necessários, acreditam exercer uma função nobre e isenta do espírito macabro que o folclore lhe empresta.
Como ocorre com todas as situações da vida cotidiana, é possível traçar um paralelo do dito em tela com o momento político atual e todas as situações dele decorrentes. Quem não gostaria de ver sepultados todos os casos de desmando, corrupção e improbidade que vivenciamos nos últimos tempos? Quem não pensou em encerrar num túmulo todas as falcatruas políticas executadas sob uma lápide de advertência para os próximos governantes?
Devolver ao pó a imoralidade que do pó surgiu e começar o novo mandato inspirado em valores sólidos de igualdade, solidariedade e cidadania e justiça é a mensagem enviada pelo provérbio revertere ad locum tum, que numa interpretação livre significa retornarás para o local de onda saíste, ou, religiosamente falando, do pó vieste, ao pó retornarás.
O momento é propício para os eleitos enterrarem a crendice popular de que política é negociata e sujeira, mostrarem a vocação cívica nos seus atos e que a arte reside na capacidade de, circulando entre interesses diversos, extraírem o que será melhor para o povo que lhes delegou o poder através do mandato.
É hora de voltar às origens, de analisar os fundamentos gregos da democracia e de trabalhar pelo bem da sociedade; de remover a mácula da máquina pública e se dedicar com a mesma diligência que os funcionários da última morada atendem aos que povoarão nossa saudade, a reconstituir o sonho pioneiro de uma cidade pujante e reconhecida interna e externamente pela honestidade, ousadia e capacidade do seu povo.
E que a exemplo dos referidos funcionários que trabalham com afinco para manter a dignidade de famílias de todas as classes, e embora saibam que quanto mais usuários maior a saúde financeira da empresa, torcem, ao contrário para que deles não precisem e pela felicidade da população, trabalhemos todos, prefeito, secretários, Ministério Público e sociedade em geral para o bem comum, afastando interesses pessoais e lembrando sempre que o poder político é um empréstimo e que se deve honrar seu proprietário.
E eu, como futura superintendente da Autarquia de Serviços Especiais, espero que nossos encontros se dêem apenas em momentos felizes, através das páginas deste jornal ou para um alegre cafezinho, mesmo que isso me leve a ter que fazer pesados exercícios para equilibrar as finanças...
- CLÁUDIA PROCHET é advogada em Londrina
[email protected]





