O alimento é um bem sagrado e muitos não o têm com a suficiência necessária. Sabe-se que o vitrinismo de belos e (pela aparência) deliciosos pratos, exibidos sobretudo nas redes sociais, desperta vontades e isto é penoso para tantos. Não há como evitar isto. Mas desperdiçar comida, como se vê nos restaurantes de rodízio e mesmo em nossas casas, é um imperdoável pecado. Sabendo-se que 1 bilhão de pessoas no mundo passam fome crônica, evitar esse desperdício é uma questão de consciência e de reverência.

Se existe o sistema - que é o ideal - de pesar a comida e pagar segundo o quanto se coloca no prato, chego ao radicalismo de sugerir que sejam proibidos por lei esses rodízios - que estabelecem previamente um preço e assim liberam que o cliente vá permitindo ao garção abarrotar o prato. Os atendentes, embora exercendo seu trabalho, no mais do casos nem deixam o comensal respirar e comer em paz... E a maioria vai aceitando. Ao final, é aquele monte de alimentos frios, que vão sendo deixados de lado. Nem todos os fregueses se valem das sinalizadoras bandeirinhas verde e vermelha. Então, são muitos o que deixam no prato um volume maior do que comeu. As crianças veem isso e imitam os adultos.

Concluo que, sob certos aspectos, a maioria dos pais preocupa-se mais com o ensino escolar dos filhos do que com o aprendizado de bons comportamentos. Um deles, este o de valorizar o alimento.

Como já trabalhei um pouco na roça, na adolescência - o suficiente para aprender - sei quanto custa em cansaço, suor e dor nas costas plantar e obter as dádivas da terra, mesmo hoje com o uso de tecnologias mais avançadas.

O desperdício também ocorre no plantio, na colheita, armazenamento, transporte e mal acondicionamento dos produtos. Quando vejo filhos constantemente reclamando à mãe que a comida não está boa me ocorre o que os miseráveis passam, pela escassez de comida ou à vezes sem ter nada.

Desperdiçar alimento é uma agressão. A família, a escola, a igreja - os três fortes pilares de formação do indivíduo - deveriam dedicar-se também ao ensino mais intenso do respeito à comida e a não desperdiçá-la. Porque, se comer, e comer bem, é um direito de todos, nosso senso de respeito, solidariedade e comensalidade é ainda escasso.

Se somos tão zelosos com o respeito às raças, à sexualidade de cada um, à ideologia de gênero e à harmoniosa convivência com nossos coirmãos, devemos cultivar com a mesma tenacidade e reverência estas outras valiosas dádivas da vida: o ambiente em que vivemos, os nossos companheiros animais, as plantas, os bens materiais. E sobretudo a comida.

Se não cultivarmos também estes valores, de pouco valerá o acúmulo de conhecimentos (alguns de baixa utilidade) obtidos pelo tão discutido sistema de educação escolar.

WALMOR MACCARINI é jornalista em Londrina

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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