Recentemente fui rever o meu rio. Ele ainda está lá, velho e preguiçoso, repetindo-se em si mesmo. Ele passa, mas é eternamente presente, e este é um mistério ainda mal decifrado por mim. Este foi o rio dos meus banhos de menino e que, pela advertência de seus pontos mais fundos, me fez entendê-lo e a aprender a nadar.
Ali eu colhia água de beber com a concha das mãos ou com um copo feito improvisadamente de folha de caetê, como nos ensinaram os mais velhos em sua simples e sábia vida do campo. Este foi o rio que me permitiu navegar por ele, sem rumo e sem pressa, e a descobrir em suas margens as tocas dos peixes grandes e os ninhos das aves aquáticas.
Rio silencioso e de águas mansas, ele parecia celebrar comigo o reencontro, rememorando o tempo em que brincava comigo ricocheteando as pedrinhas achatadas que eu lançava sobre a sua superfície plana, e por acréscimo me brindava desenhando círculos, que iam se propagando até diluir-se na distância.
Desta vez eu fiquei apenas contemplando o meu rio, com outros olhares e outros pensares. Prostrei-me ali, em reflexão, pensando a quantos milênios aquele rio passa. Ele não se esgota, embora o tenham molestado tanto, pelo que ouvi das lavadeiras e dos pescadores.
O rio corre para o mar como corremos para Deus. Há uma impulsão incontrolada e indecifrável que rege essa lei. O rio sabe o rumo do mar. O mar é a sua origem e a ela retorna. A nascente, à cabeceira, não é o seu ponto inicial mas apenas uma passagem para a entrada na superfície.
Também nós não temos na nascente terrena a nossa origem. Ali é tão-somente o portal do ressurgimento para mais um curso de vida. Uma poderosa força nos atrai para uma fonte maior um mar celestial e uma voz íntima e remota nos diz que lá é o lugar de onde viemos e para onde regressaremos. Nossa origem é o nosso destino de retorno, assim como o mar é o destino do rio.
Olho os peixes que sobem à flor-d'água para esquentar-se ao sol e fico imaginando que mão os colocou ali, e por que, em todos os rios do mundo, os peixes são iguais em cada espécie. Se o meu rio e os demais rios não se entrecruzam, então as sementes dos peixes idênticos, nos rios do planeta, foram semeadas por que mão? E penso qual mão semeou a nós, humanos, sobre a face da Terra. Deve ter sido a mesma mão que semeou as sementes de todas as coisas...
Nada detém esse curso, assim como nada detém o curso do rio. Ele poderá ser desviado ou represado, mas as águas que escapam vão serpenteando pelos caminhos, contornando obstáculos, e encontram o rumo do mar. Assim como os filhotes, instintiva ou intuitivamente, identificam o aconchego no colo materno. A indagação sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos parece encontrar resposta na odisséia do rio.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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