A falta de solução para o assassinato da estudante de educação física Amanda Rossi, 22 anos, ocorrido em 27 de outubro do ano passado dentro do campus da Universidade Norte do Paraná (Unopar), parece fazer do crime uma ''pedra no sapato'' dos londrinenses. E quase dez meses depois, fatos novos ainda vêm à tona.

Nesta entrevista exclusiva à FOLHA, o perito criminal responsável pelo caso, Luciano Bucharles, 14 anos de experiência na área, revela que nenhum delegado compareceu à cena do crime no dia em que o corpo da universitária foi achado dentro de uma casa de máquinas no campus. E que as primeiras peças de calçados pertencentes a um suspeito, que poderiam ser comparadas com as pegadas encontradas no local do crime, chegaram somente na semana retrasada - nada que colabore para a solução do homicídio, já que o exame deu negativo.

O trabalho da perícia no caso Amanda ainda não terminou?
No dia em que o corpo foi achado, fiz os exames e registrei algumas evidências que julguei bastante fortes: duas marcas de solado ao lado do corpo da vítima e o espargimento de sangue da vítima nas vestes do autor do crime. Neste caso, você fica aguardando material (de suspeitos) para comparação. Quanto antes chegar, melhor. E passados dez meses, o que recebi foram quatro calçados. Só agora, no último dia 6 de agosto.

Que dificuldades você encontrou no dia em que acharam o corpo?
Naquele dia me chamaram às 8h30. Cheguei 15 minutos depois. Não havia nenhum delegado no local, como também não havia no outro caso de homicídio que atendi na sequência. Normalmente eles não vão, embora seja obrigatório. O Código de Processo Penal diz que a autoridade policial deve chegar antes do perito, isolar o local e providenciar para que não se altere o estado e conservação das coisas.

A ausência do delegado comprometeu o trabalho?
É lógico que tem um certo prejuízo para as investigações. O (delegado-chefe da Polícia Civil) Sérgio Barroso me ligou depois e perguntou por que liberei o local. Eu ia ficar segurando o corpo da vítima até quando? O delegado foi aparecer no outro dia, às 11 horas. Eu mesmo já tinha retornado ao local quatro vezes.

O delegado teria condições de solicitar os exames necessários antes, se tivesse comparecido ao local no dia?
Quando você tem contato com a cena do crime, facilita para todo mundo que vai trabalhar. Por exemplo, eu devo ter falado para ele de pegadas, de espargimento de sangue. Para quem não viu a cena, isso pode passar meio despercebido. Você veja: a primeira peça de calçado que me mandaram foi agora, quase um ano depois...

O(a) assassino já pode ter se livrado do calçado que usou no dia...
Não só se livrado: depois de dez meses usando o calçado, muda o formato. Uma vez me coloquei à disposição para acompanhar o delegado em qualquer busca que tivesse. Deixei claro que não precisava nem saber quem eram os suspeitos, para ninguém temer vazamento de informação. Era só me ligar e na hora eu ia.

E te ligaram?
Nunca. Até hoje não sei se havia suspeitos ou não. Se tinha, essa busca e apreensão de roupas e calçados deveria ter sido feita meio que de imediato. Mas talvez não houvesse suspeitos. Ou talvez eles não tivessem elementos comprobatórios que justificassem um mandado.

O tempo que se passou também pode ter comprometido as gravações do circuito interno de câmeras da universidade...
Questionaram se a universidade não poderia ter alterado as fitas. Acho o seguinte: quando um desaparecimento ocorre em local sabido, compensa ir dar uma olhada e não é necessário aguardar 24, 48 horas. Os pais da Amanda foram domingo cedo registrar a queixa. Se a polícia tivesse ido até lá no mesmo dia, teria encontrado o corpo em melhores condições de exame e apreendido as fitas.

É o sistema policial que está errado?
A estrutura policial como um todo funciona de maneira muito equivocada. Há pouca interação dos órgãos que estão investigando. Eu fiz a perícia e nunca mais tive contato. Nesse tempo, o caso já passou por três delegados. Na Polícia Científica, quem inicia o exame termina. Na minha humilde opinião, acho que em delegacia deveria funcionar da mesma forma.

Qual a principal razão para o crime não ter sido solucionado?
A falta de um rol de suspeitos, em virtude de ser uma festa aberta. Qualquer pessoa do mundo, em tese, poderia estar ali. Isso dificulta muito o trabalho da polícia. Com relação à investigação, me ofereci para auxiliar e não fui utilizado. Não acompanhei a investigação e seria leviano se falasse que houve falhas. Na perícia, até agora, ninguém apontou nenhuma. Não houve pedido de complementação de laudo para a gente. Me faz pensar que estão satisfeitos.

O caso Amanda te tira o sono?
Não. Hoje eu posso falar sem medo de errar que pouquíssimos casos não são solucionados por falha pericial. O que me incomoda é gente que não é da área dar pitaco. Nem todas as pessoas tiveram a oportunidade de ver os laudos deste caso, como você. Sabe por que falaram, na época, que a perícia não tinha descoberto nada? Porque eu não divulguei. Para preservar a investigação, você passa por incompetente. É isso que me chateia.

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