Revanche financeira - Arlete Salvador
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segunda-feira, 18 de janeiro de 1999
Arlete Salvador 
Da moratória do governador de Minas Gerais Itamar Franco à desvalorização do real, o Brasil virou notícia no mundo todo. Quase todos os grandes jornais da Europa e dos Estados Unidos deram destaque às novidades da terrinha. Alguns sem entender muito bem quem é Itamar Franco ou que ele quer - o sistema federativo, que divide o país em Estados independentes, não é mesmo matéria corriqueira para quem não acompanha o dia-a-dia do Brasil. A agência Reuters chegou a divulgar uma foto de fila em bancos para pagamento do IPVA, o imposto dos carros, como se fosse uma corrida para sacar dinheiro por medo da crise.
A capacidade de derrubarmos as bolsas de valores de todo mundo também é motivo de verso e prosa. Acertamos Tóquio, Paris, Madri e a poderosa Alemanha. Wall Street que nos aguarde. Todas os mercados sucumbiram à força demolidora da economia brasileira. Nos noticiários da televisão, repórteres lêem, por telefone, trechos de artigos de jornais estrangeiros sobre o que acontece em Brasília. Nem tudo muito correto, mas, vá lá - finalmente, somos notícia.
Estranho ufanismo esse que faz gente encher a boca ao contar como fomos espinafrados num artigo do influente diário inglês Finantial Times. E o prazer com que se lê a reportagem de um jornal alemão, de nome impronunciável, jogar a culpa de toda a crise brasileira e mundial nas costas do pobre Itamar Franco. Ele pode ter lá a sua culpa no cartório, mas fazer dele o responsável pelo episódio é pura ingenuidade. Mas como foram os alemães que falaram, tudo bem, deve ser verdade.
As notícias de fora sobre o Brasil, por pior que sejam, funcionam como um alento a um nacionalismo reprimido. Algo na linha do velho chavão falem mal, mas falem de mim. Quando se vê ou se lê uma notícia sobre Brasil num jornal estrangeiro, surge também um certo sentimento de magnitude para abafar a pequenez com que somos tratados em outros casos. Ou uma certa vingança embutida no prazer pelos estragos causados. Afinal, quando o mundo reconhece as nossas qualidades, como no carnaval ou na Copa do Mundo, é sempre com uma pontinha de ironia.
O Carnaval é sempre mostrado como a festa da luxúria e das mulheres peladas. Isso existe? Claro que sim. Mas é uma parte e, certamente, a menor parte. Quem já viu um desfile de Carnaval no Rio de Janeiro sabe que as mulheres peladas são apenas meia dúzia no universo de 5 ou 6 mil figurantes vestidos literalmente da cabeça aos pés. No futebol, não é diferente. O desempenho dos jogadores brasileiros no esporte, em geral, é atribuído a um certo caráter lúdico do País e raramente à competência profissional de atletas e técnicos. Como se fôssemos bons por sorte.
Por isso, no furacão das bolsas de valores, surge ainda, no fundo, no fundo, um certo sentimento de revanche. Podemos cair, mas o mundo vai junto.
ARLETE SALVADOR é jornalista em Brasília


