Parece um simples detalhe, mas os depoimentos contidos na gravação da fatídica reunião de 13 de dezembro de 1968, que aprovou a edição do AI-5, revelam uma faceta até então desconhecida de milhões de brasileiros que viveram sob os pesados ‘‘anos de chumbo’’. Alguns participantes daquele evento (Jarbas Passarinho, Magalhães Pinto) usaram abertamente o termo ‘‘ditadura’’ para designar o ciclo que se estava instaurando.
Ocorre que quem falasse esse termo, não apenas na época, mas muitos anos depois, era considerado subversivo ou comunista. A repressão e a censura impregnaram de maneira tão violenta a maquinaria psíquica dos cidadãos que, até hoje, muitos se policiam e usam metáforas como ‘‘movimento revolucionário’’, ‘‘ciclo autoritário’’, ‘‘época dos militares’’ para designar o que foi uma cruel ditadura. Nem mesmo o conceito de ‘‘anos de arbítrio’’ poderia ser expresso.
As sequelas estão presentes no caldo de nossa cultura política. Uma geração inteira, se não foi castrada mentalmente, pelo menos alimentou-se do medo, que inibe e força os mecanismos mentais a selecionar padrões, normas de conduta e até palavras e conceitos. Entre os principais representantes do nosso sistema político, são raros aqueles que proclamam de público termos ‘‘vivido uma ditadura’’. É claro que não fazem parte desse grupo os políticos torturados nas prisões ou marcados pelo exílio. Por muito tempo, a locução nacional esteve aprisionada, comprimida, administrada pelos olhos onipresentes dos agentes do Estado opressor.
E o mais incrível, nesse momento em que se divulga a reunião de convalidação do AI-5, é a manifestação de apreço do próprio presidente Fernando Henrique ao ex-presidente Costa e Silva, que assinou o ato. Teria sido ele ‘‘gente’’, ou seja, teria sido ‘‘humano’’, simplesmente pelo fato de haver mostrado preocupação com ‘‘as consequências do AI-5’’. É o que pensa FH. Não há como deixar de se comparar o elogio presidencial à ‘‘síndrome de Estocolmo’’, pela qual os sequestrados, de tanto conviver com os sequestradores, acabam tendo por eles certa compreensão, compaixão e até um sentimento de indulgência. Como diriam os nossos avós, ‘‘nunca digas que desta água não beberás’’.
Quem diria, por exemplo, que um algoz torturador viria à tona, 30 anos depois, para se orgulhar de seus feitos? O depoimento na revista ‘‘Veja’’ desse Marcelo Paixão, ex-tenente, um monstro, frio e cheio de risadas irônicas, é mais uma peça de nossa tendência em dar o dito pelo não dito. Pois como se pode admitir que uma pessoa não apenas confesse crimes, mas deles se orgulhe como se fossem troféus de guerra? Não pode haver perdão para gente que se gaba da truculência e da brutalidade. Está aí o ex-ditador Pinochet, senador vitalício, às vias com a Justiça. Os anos não apagaram as marcas de sua monstruosidade. A Justiça brasileira haverá de achar razões para processar alguém que, descaradamente, confessa ter sido o torturador número um da ditadura.
Infelizmente, a alma nacional parece, às vezes, padecer do sentimento da acomodação. ‘‘Deixe isso pra lᒒ, ‘‘vamos relevar a questão’’, é o que se ouve de um lado e de outro. Ora, a cidadania é um edifício que se constrói com a argamassa dos direitos, dos deveres e dos princípios. Não existe cidadania quando se deixa o estado da barbárie se instalar sobre o estado do direito. Que gerações plasmaremos no amanhã, se permitirmos que criminosos façam de suas vidas sangrentas bandeiras de orgulho? A propósito, a geração dos anos 70 está passando ao largo em matéria de ditadura. Talvez por isso, depoimentos como o desse Marcelo ou atos institucionais como o AI-5 não passem de expressões sem nexo ou letras em asas de aviões.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor universitário em São Paulo e presidente da ABCOP (Associação Brasileira de Consultores Políticos)

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