Retirada silenciosa
O escândalo dos precatórios reduziu o impacto de alguns recentes acontecimentos políticos, importantes para a definição do futuro quadro sucessório. O presidente Fernando Henrique Cardoso tem motivos de sobra para saborear considerável triunfo, marcado pela retirada silenciosa de cena de alguns de seus principais oponentes.
Senão, vejamos. O senador José Sarney disse, há dias, que não adianta seu partido, o PMDB, lutar contra fatos consumados. A reeleição está aí e não adianta ignorá-la. Os que são versados na leitura das entrelinhas políticas não têm dúvida de que Sarney saiu de cena. Não irá enfrentar Fernando Henrique nas eleições presidenciais de 1998. Ao contrário, o apoiará, ainda que explorando as dificuldades eventuais do aliado para valorizar o apoio.
Sarney, aliás, sempre agiu assim, pelo menos quanto a Fernando Henrique. Basta analisar suas atitudes na presidência do Senado. Coube-lhe frear o processo de reformas no primeiro semestre após a posse de Fernando Henrique, quando, no embalo de um mandato zero quilômetro, o presidente estaria em condições de aprovar o que quisesse, até a restauração da monarquia.
Sarney, na ocasição, opôs-se à convocação extraordinária do Concresso no recesso de julho, pondo água fria no entusiasmo da bancada governista. O resultado é conhecido. As reformas continuam pendentes e enroladas. Cada nó desatado tem seu preço, negociado ponto por ponto. A isso chama-se aliança em conta-gotas, mas essa é outra história. Voltemos à sucessão.
Outro personagem a anunciar em voz baixa sua capitulação aos fatos consumados é o ex-presidente Itamar Franco. Ele não fez declarações, nem tocou na questão sucessória. Mas, segundo se informa, interlocutores seus estão empenhados em obter apoio do presidente Fernando Henrique à candidatura do ex-presidente ao governo de Minas em 1998.
Quem postula o governo de Minas, como é óbvio, está confessando que não mais postula a presidência da República. Itamar, que se opôs desde o início à reeleição, parece estar vendo o mesmo filme de Sarney, cuja síntese equivale àquela blague segundo a qual ‘‘se o estupro é inevitável, relaxe e aproveite’’. As pesquisas demonstram que, a prevalecer a preferência do eleitorado por um discurso conservador, não há rivais para Fernando Henrique. Como no campo das esquerdas reina a desolação, o presidente sente-se triunfante solitário.
Outro de seus potenciais oponentes, o ex-prefeito Paulo Maluf, desfruta de dias amargos em Paris (o que é, em princípio, um paradoxo), na tentativa de salvar-se dos respingos da lama dos precatórios, que encharcou o gabinete de seu sucessor, o prefeito paulistano Celso Pitta. A candidatura Maluf, em princípio, é caudatária do destino político de Pitta, que, neste momento, sinaliza rumo ao cadafalso.
- RUY FABIANO é jornalista em Brasília.

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