Ressurreição: mito ou verdade? - Maria Lucia Victor Barbosa
Ressurreição: mito ou verdade?
Maria Lucia Victor Barbosa
Ora, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como podem alguns dentre vós dizer que não há ressurreição dos mortos? (Coríntios 15:12). De fato, nenhum cristão poderia duvidar da vitória sobre a morte simbolizada pela ressurreição de Jesus, e de sua posterior ascensão aos céus. Mas neste final de século, quando a vida se banaliza e a mediocrização dos costumes é uma constante global, quantos cristãos de fato mantêm essa crença? Quantos a interpretam dogmaticamente ou a explicam tão somente por seu valor simbólico?
Ao comentar-se assunto tão complexo e delicado, cuja aceitação depende estritamente do foro íntimo de cada um, ou seja, da fé que habita a consciência de cada indivíduo, seria interessante recordar primeiramente que ressurreição e reencarnação não são coisas idênticas como alguns podem pensar. Ressurreição significa voltar ao mesmo corpo depois da morte. Reencarnação quer dizer o retorno a outras vidas em outros corpos depois de um período que se segue à morte. Seja como for, não só o cristianismo, mas todas as religiões se fundamentam na crença de que haverá algum tipo de continuidade após a morte. Como se sobrevive é descrito de maneiras variadas, mas justamente a fé num mundo espiritual é que acaba dando o significado ao mundo material, e gerando códigos de moral e de ética para condicionar condutas que garantam a salvação em outros planos.
Deixando-se de lado a questão da fé, pois esta espécie de certeza não se discute, pode-se tentar compreender logicamente esta constante da eternidade presente em todas as religiões, como a vontade do homem de superar sua finitude e sua temporalidade. É que apesar de sermos criaturas do transitório, às quais não cabe o entendimento do infinito, não aceitamos que a vida se esvaia na morte de forma radical. Por isso, o homem, ser periférico da matéria, é na verdade um nostálgico da eternidade, um esperançoso da salvação, que aguarda sua fusão ao Centro Criador por meio dos seus códigos religiosos.
Sobre o sentido e a interpretação da eternidade, recordemos brevemente uma das civilizações mais notáveis de quantas já existiram: o Egito antigo, onde não havia demarcação nítida entre fatos sociais e fatos religiosos. Desse modo, o desenvolvimento da história da religião egípcia estava intimamente ligado à história política. Também a literatura se inspirava na religião, o mesmo ocorrendo nas manifestações artísticas de toda ordem. Mesmo a vida cotidiana, os gestos corriqueiros do egípcio eram impregnados de religiosidade. E ainda que não houvesse uma unidade de crenças, os egípcios antigos constituíram o povo que talvez mais rendeu tributo à eternidade, o que se tornou visível por intermédio de suas magníficas e monumentais pirâmides.
Sobre o mito da ressurreição, eles nos legaram o relato de Osíris. Esse deus foi afogado por seu perverso irmão Set, mas sua esposa, a deusa Ísis, tomou a forma de um pássaro e pousou sobre o cadáver agitando suavemente as asas. O deus voltou à vida e fecundou a esposa, que teve um filho, o deus Hórus. Depois de ressuscitar, Osíris não retomou suas funções de rei na terra, mas tornou-se um rei noutro mundo e deus dos mortos. E isso está narrado nos textos das pirâmides e num documento do Médio Império que se encontra no Museu do Louvre.
Lembremos também que o judaísmo, e depois o cristianismo, foram profundamente influenciados pelo zoroastrismo, tomando emprestado dessa religião crenças relativas à ressurreição, céu e inferno, anjos e demônios, fim do mundo e julgamento final.
O hinduísmo, que significa o conjunto de religiões existentes na Índia, não apela para o mito da ressurreição, mas apresenta uma explicação extremamente lógica e consoladora no tocante à evolução espiritual do homem. Segundo o hinduísmo, cada homem possui uma alma imortal, ou atman, que renasce milhões de vezes, em muitas formas, de acordo com a lei moral, ou carma, que prevalece no universo. A lei do carma não significa recompensa ou punição, mas é tão impessoal e certa quanto a lei da gravidade. Porém, é possível a libertação do renascimento ou moksha, e o hinduísmo aponta os caminhos para se alcançar isso.
Nota-se, portanto, nesses breves e sucintos exemplos, que apesar de suas aparentes diferenças as religiões guardam muitos elementos comuns, que aparecem de forma evidente através de estudos mais aprofundados. Sempre emergem aqui e ali nas mais variadas crenças, as trindades, os avatares, a questão do bem e do mal, as versões do mundo espiritual, a salvação ou a danação, os rituais fúnebres etc.
Assim, as religiões, com seus vários nomes de Deus, consagram a busca humana da eternidade, atestando a recusa da morte por parte do homem, que mesmo nesta vida procura se perpetuar através dos seus filhos, de suas obras, de seu legado social. E a obsessão de não ser esquecido, que neste mundo também se evidencia no culto aos mortos, nas religiões transmuta-se na idéia de vida eterna, na esperança de que um dia se complete a fusão perfeita entre criatura e Criador. O para sempre que as religiões apresentam constitui, pois, em última instância, na certeza daquilo que nunca acaba, na renovação do que é imperecível.
Mas sobre essas coisas que dependem da fé de cada um, e sondam o além através de fronteiras da vida, como é o caso da ressurreição, é mais prudente tomar-se emprestadas as palavras de Heródoto: Sobre esses mistérios, que todos, sem exceção, me são conhecidos, que minha boca guarde um religioso silêncio.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, professora universitária e escritora. E-mail: [email protected]





