''Agora é diferente, somos nós mulheres que estamos mandando.'' À primeira vista, o verso poderia ser lido como um libelo do feminismo. O nome da nova fábrica de hits funkeiros, contudo, seria suficiente para causar arrepios nas representantes mais ortodoxas do movimento: ''Gaiola das Popozudas''.

Nada que a líder e vocalista do grupo, Valeska, 30 anos, considere um paradoxo. A nova rainha do batidão - que já destilou polêmica diante da apresentadora Luciana Gimenez, na Rede TV, e tem agenda cheia pelos palcos do País - garante que está defendendo a dignidade das mulheres, mesmo quando entoa pérolas como ''sou cachorrona mesmo e late que eu vou passar'', ''é o bonde das amantes, caçadoras de peru'' ou ''os homens querem amantes, as mulheres do baile querem um otário para bancar''. Em entrevista exclusiva à FOLHA, Valeska fala sobre este curioso ''neofeminismo''.

As músicas do ''Gaiola'' são feitas só para requebrar ou o conteúdo é importante?
É entretenimento com letras que trazem mensagens, que falam sobre a realidade. A gente está sempre alertando as mulheres para as coisas que acontecem na vida, defendendo elas. Temos uma música nova, por exemplo, que fala sobre a mulher apanhar do marido.

Mas também tem ''Late que eu tô passando''. Seria uma bandeira de auto-afirmação?
É por aí mesmo, porque muitas se calam. Não têm coragem de abrir a boca e falar. Então quando eu canto elas começam a se soltar, é uma forma de desabafarem junto comigo.

O desabafo inclui versos como ''vou comer o teu marido''. É para ser levado ao pé da letra?
A mulher em si, aquela que é fiel, não aceita que o marido vai ter outra na rua. Não aceita, mas é uma realidade. A gente bota na música para alertar do que acontece.

Vocês não estão defendendo a infidelidade?
Não, nem eu gosto que me traiam... (risos) Quando estou com alguém, não aceito traição, quero que ele seja só meu. Por isso que é melhor você ficar sozinha, porque senão se decepciona muito.

A agressividade das canções nasceu de alguma decepção pessoal?
As letras vêm de coisas que escuto de amigas, que aconteceram comigo. Desde que comecei a cantar funk, especialmente depois de ''Late que eu tô passando'', vi que era possível gritar pelas mulheres. No começo meu público era quase todo masculino. Agora, acho que é 80% feminino. É uma conquista, pois é difícil uma mulher aceitar outra, ainda mais em cima do palco, dançando de forma sensual. Entre as fãs tem até mães que me dizem ''Valeska, meu filho de seis anos te adora''.

Você não teme que as crianças absorvam o conteúdo das músicas da pior maneira?
Não, as crianças não têm essa maldade.

Ainda vivemos numa sociedade muito machista?
Não, acho que isso já passou. Se for ver bem, o homem nunca vai ser um santinho. No meio das mulheres, jamais vai prestar mesmo. Se não trai com contato carnal, trai pelo pensamento.

E dizer que as mulheres precisam aceitar este fato não é machismo?
Se conforma quem quer. Ninguém é obrigado a se conformar com traição. Muitas aturam por causa dos filhos, porque não trabalham, não têm para onde ir. Outras botam a cara no mundo e não ficam submissas ao homem.

Então a saída é permanecer solteira?
Isso. Fica solteira, namora bastante, curte a vida. Casa se tiver que casar, se estiver pronta, se cansou de ficar sozinha e curtir. Muitas não gostam da solidão.

Explorar publicamente a sexualidade é pré-requisito para a mulher ser alguém hoje em dia?
Acho que não. A mulher, quando tem que ser sensual, vai ser de todas as formas. Não precisa estar vestida vulgar. Pode estar com vestidão no pé, que desperta mais curiosidade no homem, fica até mais sensual.

A regra não vale para vocês...
No meu trabalho, não posso usar vestidão. Tenho que botar uma roupa sensual, um short, uma sainha, coisas leves que mostrem como é o meu corpo. Agora, as nossas danças não são vulgares. São sensuais.

Há quem critique a banalização do sexo nos bailes funk - meninas teriam relações ali mesmo, às vezes sem saber com quem e expostas à gravidez e a doenças sexualmente transmissíveis. O que pensa disso?
Não existe nada disso. O povo vai para se divertir. Depois que acaba a festa, pode rolar, mas dentro do baile funk ninguém faz sexo. É invenção da mídia. Falam do funk porque é um ritmo que está sempre em evidência. Pode dar uma caída, mas nunca acaba.

mockup