Durante o regime militar, a maioria das organizações estudantis nas universidades brasileiras foi extinta pelo Decreto 477, após as turbulências de 1968. O Diretório Central dos Estudantes da Universidade Católica do Paraná (PUC) foi o primeiro (de que tenho notícia) criado no País no período da revolução. Também foram criados, nos cursos de graduação, os Núcleos Estudantis, os atuais Centros Acadêmicos de Curso.
A minha vinda para Curitiba se deu em 1975, para assumir o cargo de vice-reitor para Assuntos Comunitários e Estudantis da Universidade Católica. A instituição ainda concluía a sua reforma universitária e havia sido assumida pelos Irmãos Maristas no ano anterior.
A universidade era pequena, com cerca de 4 mil estudantes e, naquele ano, apenas com metade do primeiro prédio concluído, iniciava a transferência dos primeiros cursos da área de humanas para o Campus do Prado Velho, onde funcionavam o curso de Direito e o curso de Serviço Social, este em cinco casinhas pré-fabricadas.
Nesse espaço, foram alojados o Diretório Central dos Estudantes e os quatro diretórios acadêmicos de centro que criamos em 1975. Foi durante esse período que, em várias ocasiões, como vice-reitor, tive que ir ao DOPS para libertar estudantes presos ou limpar a barra de outros acusados de subversivos. Tinha que demonstrar que as acusações não passavam de suspeitas infundadas e empenhar a minha palavra no sentido de que os meninos não eram perigosos e que eu iria cuidar deles.
O convívio universitário de todos esses anos produziu em mim um crescente respeito e admiração pela academia e, em particular, pelos estudantes e suas lideranças. Pude dimensionar o que uma universidade pode representar para uma cidade e uma região. Aprendi a valorizar a intelectualidade e a respeitar os especialistas e os pesquisadores, os professores e, sobretudo, os verdadeiros educadores que se dedicam com carinho aos seus alunos.
Revelador foi descobrir que, por mais que se estude e se aprenda, não conseguiremos passar de eternos aprendizes. Parece-me claro que todo o conhecimento adquirido de pouco adianta, se permanece apenas intelectualizado e não é utilizado. O conhecimento que, descoberto e assimilado intelectualmente passa pelo coração e para a vida, transforma-se em sabedoria e se torna extremamente fértil, produtivo e transformador.
Todo trabalho acadêmico permanece inacabado e se torna mesmo um desperdício de esforço sem essa etapa terminal. O melhor saber é aquele que busca a iluminação para a o agir.
Encanta-me a figura proposta pelo educador inglês Whitehead, que descreve o processo educacional como uma corrida de revezamento, onde o facho iluminador do saber é passado de mestre para discípulo, para o contínuo aperfeiçoamento e progresso da humanidade.
- CLEMENTE IVO JULIATTO é reitor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC) e provedor da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba

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