Respeito necessário
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de maio de 2003
Gilberto Linhares 
A profissão de enfermagem tem pelo menos dois privilégios: é a única em nosso país a contar com uma semana (de 12 a 20 de maio), e não apenas um dia, de comemorações oficiais e também a única a ter essas comemorações fixadas em decreto presidencial. Tais fatos não aconteceram por acaso. As duas datas correspondem, respectivamente, ao nascimento de Florence Nightingale, considerada fundadora da moderna enfermagem, e à morte de Ana Néri, o grande ícone da enfermagem brasileira. E o decreto (nº 8.202, de 1960) foi assinado por Juscelino Kubitschek no ano em que se comemorava o cinquintenário de morte da primeira.
As coincidências na vida dessas duas heroínas não se restringem à inclinação para a carreira que abraçaram. De fato, ambas deram mostras de heroicidade e vocação humanitária em plena guerra a da Criméia e a do Paraguai e enfrentaram desafios que só mulheres com sua têmpera e seu caráter ousariam enfrentar.
Mas não só o culto a essas personalidades, a celebração das vitórias e as lutas por novas conquistas no campo profissional devem ser evocados quando se comemora, mais uma vez, a Semana Brasileira de Enfermagem. A esta altura da grande contribuição dada à saúde pública em nosso País, a enfermagem quer receber da sociedade, como retribuição, a consideração devida a uma categoria que cuida dos enfermos com paciência e desvelo, que permanece ao seu lado e ao lado de seus familiares nesses momentos difíceis de suas vidas, enquanto o médico por força do próprio regime de trabalho não tem como dedicar-lhes mais do que alguns minutos de atenção.
Uma infeliz e desastrada herança cultural ajudou a plasmar uma falsa imagem da categoria que dramaturgos, atores, produtores de shows e programas televisivos e outros formadores de opinião, deploravelmente, não se preocupam em desmitificar. A maioria, entre contribuir para pôr fim ao preconceito odioso e satisfazer o apetite de um público sequioso de tiradas mordazes, tem preferido esta última solução.
Ator famoso, interpretando personagem de novela de grande audiência, referia-se recentemente à figura da enfermeira com um comentário de baixíssimo nível e terrível mau gosto: ''Ela deve estar se esfregando em algum canto com algum médico''. É o caso de indagar do responsável pelo texto se teria coragem de praticar esse despropósito se o objeto do comentário fosse, por exemplo, uma médica.
O mínimo que enfermeiros, e especialmente enfermeiras, esperam em troca dos serviços que prestam à sociedade é o respeito. Até porque essa mesma sociedade só terá a perder se membros de alguns de seus setores representativos insistirem em denegrir a classe e em desestimular vocações nessa área, com repercussões negativas inevitáveis sobre as políticas de saúde.
GILBERTO LINHARES é presidente do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN)


