O escândalo da Receita Federal, como vem sendo chamada a quebra de sigilo fiscal de opositores do governo, é mais grave do que se pensa. O grande público não sabe; só faz ideia disso quem tem a oportunidade de ler os jornais (nem todos os jornais) e as revistas semanais (nem todas as revistas). Esses leitores é que podem avaliar o estrago que violações causam à democracia. Mas a grande mídia - que atinge as massas - não dá ao episódio a dimensão que ele merece. Quando não o omite, fica no superficial ou preza mais a versão oficial. É tendenciosa.

Pessoas que pensam com isenção (e têm acesso a todas as versões dos fatos) mostram-se preocupadas a iminente desmoralização de instituições. Em reportagem sobre o assunto a revista Veja do último domingo inclui depoimentos de brasileiros indignados. O jurista Ives Gandra Martins afirma: ''A Receita jamais poderia permitir que dados sigilosos viessem a público. A esta altura, nenhum de nós se sente seguro porque sequestradores e outros criminosos podem ter acesso a esses dados.'' Detalhe: o sigilo não é privilégio do contribuinte, são dados que pertencem ao Estado.

Para a jornalista Lúcia Hipólito (Globo), ''A Receita Federal virou a casa da mãe joana, onde qualquer um entra, vende e compra os dados que quiser. O estado brasileiro se mostra incapaz de proteger o sigilo fiscal. Os cidadãos estão vulneráveis.'' Detalhe: o Estado, as instituições viraram instrumento de um governo. Na análise de Veja, a situação é pior: ''É o Estado a serviço do Partido''.

O jurista Paulo Brossard concorda: ''O serviço público (como a Receita Federal) não pode ficar a serviço de um partido''. Há outros depoimentos, como o do ator Osmar Prado. Enfim, todos acusam o governo de usar do seu poder para violar sigilos, mas, ao mesmo tempo, ninguém isenta a Receita. Violações como a perpetrada contra a Caixa, no primeiro mandato de Lula, e agora contra a Receita Federal, tiram a credibilidade de órgãos que precisam manter uma imagem de austeridade e isenção para o bom exercício da fiscalização. O governo do PT não têm o direito de desmoralizá-las.

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