Respeitar o eleitor
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de maio de 1997
Antônio Delfim Netto 
O processo da reeleição está irremediavelmente maculado pelos acontecimentos que interferiam na votação da emenda na Câmara dos Deputados. As denúncias sobre a compra de votos devem ser esclarecidas, para que os eleitores possam acreditar na lisura das próximas eleições, quando decidirão se reelegem ou não o atual presidente da República, governadores e prefeitos. A comprovação (ou não) desses fatos terá uma importância decisiva no veredito dos eleitores em 1998.
Por estes motivos, é preciso apoiar a instalação da CPI na própria Câmara ou de uma CPI mista com a participação do Senado Federal. Ao lutar com unhas e dentes para impedir a apuração ampla dos fatos, o governo age como se acreditasse que será sempre favorecido pelo benefício da dúvida. Já existe uma reação indignada da sociedade, que o governo não consegue reprimir mesmo lançando mão dos poderosos meios de que dispõe para influir na mídia. Os governos tucanos, que se gabavam de interpretar corretamente a voz rouca das ruas, começam a desconfiar que a gritaria estridente das ruas não é apenas o produto de badernas organizadas por grupos oposicionistas. É uma questão de inteligência pesquisar as razões objetivas que podem estar subjacentes aos protestos recentes, como por exemplo o crescimento dos níveis de desemprego, ou... queda nos índices de credibilidade dos governantes...
Não convence a ninguém o argumento oficial de que não pode haver CPI porque atrapalharia o andamento das reformas. Não há nenhuma razão para supor que o Congresso não possa tratar dos dois assuntos, por mais emoções que a CPI desperte. A questão da compra dos votos lançou uma nódoa sobre todo o processo, e a sociedade não vai se tranquilizar enquanto a mancha não for eliminada. Isso é uma necessidade, tanto para o Congresso, que precisa dar satisfações cabais aos eleitores, quanto para o sr. presidente da República, que tanto lutou para ver a reeleição aprovada.
Os parlamentares governistas têm diante de si uma ótima oportunidade para demonstrar que o presidente não tem nada a ver com esse processo, que ele próprio classificou de sujeirada. Não há nada que o incrimine. Provavelmente ele foi vítima de seus áulicos. O Congresso, por sua vez, tem a oportunidade de rejeitar de vez a truculência que tem alvejado tantos de seus membros, como se verificou, inclusive, durante o processo de votação da emenda reeleitoreira e por ocasião da escolha do presidente da Câmara dos Deputados. Essa forma de agressão se repete agora, quanto um ilustre representante do Executivo vem a público exigir que a Comissão de Sindicância promova a cassação sumária dos deputados denunciantes e encerre imediatamente as investigações, sem sequer ouvir as partes denunciadas!
Não devemos subestimar a reação popular e muito menos os danos institucionais resultantes da redical escamoteação de fatos tão graves.


