Resolver questão agrária sem confronto
Importa menos saber quem são os culpados por mortes em novos confrontos de sem-terra e proprietários rurais com áreas invadidas, porque mais relevante é a causa central: o abandono da questão agrária pelo Governo. As autoridades, por via do Ministério Público e da Polícia Civil, só intervêm quando os conflitos ocorrem, portanto, cuidando das consequências. O Movimento dos Sem Terra não cessará as invasões, e quem for invadido não deixará de defender-se. Há uma luta franca e declarada e se o MST invade propriedade alheia, causa destruição e também usa armas, natural que se formem milícias armadas em defesa da propriedade.
Na última terça-feira, em depoimento publicado na seção dos leitores desta página - ante o episódio da estação experimental da empresa Syngenta - o produtor rural Marcos Prochet declarou: ''Posso afirmar de cátedra que os sem-terra possuem um arsenal pesado e não hesitam em usá-lo''. Em abril de 97 - ele afirma - os sem-terra ''invadiram minha propriedade, destruíram minha lavoura, mataram meus animais e me mantiveram em cárcere privado por mais de duas horas, com três armas encostadas em minha cabeça e várias foices em torno do meu pescoço''.
Se, de um lado, o líder dos sem-terra Darci Frigo afirma que ''não é apropriado falar em confronto, pois foi um ataque'', certo que - com referência ao presente caso - o fato antecedente foi a invasão da propriedade, e isto não tem outro nome senão um ataque. A denominação de ''movimento social'' atribuída aos sem-terra pelas correntes (e governantes) de esquerda não descaracteriza e nem invalida que uma invasão é um ato de força.
Ao não buscar, por via inteligente, solucionar o problema agrário no Brasil, proporcionando o acesso à terra aos legítimos colonos que desejam cultivá-la, os Poderes da República cometem uma indesculpável imprudência. É função desses Poderes não só sair à caça de culpados quando confrontos e mortes acontecem (como agora ocorreu, mais uma vez), mas solucionar o problema em sua origem. A fórmula sábia reside em projetos bem fundamentados para assentar os colonos que desejam realmente trabalhar, porque terra é que não falta no Brasil. Não são apenas áreas férteis que existem mas também estrutura tecnológica oficial para orientar a atividade rural.
Paradoxalmente, essa avançada tecnologia emana da esfera governamental (leia-se Embrapa, em seus vários segmentos, instituições agronômicas, serviços de extensão das secretarias estaduais de Agricultura e também de órgãos municipais). De um lado, essa avançada retaguarda, e de outro a incompetência do Governo para empreender projetos consistentes de formação agrária, num país com suficiente estoque de terras e com disponibilidade de recursos financeiros.





