Os Estados Unidos e a Grã-Bretanha assumiram, com os absurdos e imorais bombardeios do Iraque, a liderança entre os países que desmoralizam a Organização das Nações Unidas para impor ao mundo mecanismos de ação que desconhecem o organismo internacional.
Ao se falar do Iraque, é forçoso falar em Estados Unidos e Grã-Bretanha, mas na verdade os britânicos têm sido meros apêndices dos norte-americanos. O poderio militar da Grã-Bretanha é muito menor e a adesão incondicional às políticas norte-americanas já é tradicional, seja no governo da conservadora Margarete Thatcher ou do tido como centro-esquerdista Tony Blair. (Blair, aliás, a cada dia se desmascara mais e perde popularidade na Grã-Bretanha, como o professor José Flávio Sombra Saraiva mostrou recentemente em artigo neste jornal. Como se sabe, não se engana todos o tempo todo e os ingleses não engoliram as versões oficiais sobre os ataques ao Iraque com a mesma facilidade dos norte-americanos).
O bombardeio anglo-americano ao Iraque deixou a ONU em uma situação difícil. Os dois países já estavam matando iraquianos indiscriminadamente enquanto o Conselho de Segurança - do qual são membros permanentes com poder de veto - ainda discutia o que fazer diante do suspeito relatório do chefe da missão da ONU incumbida de desarmar o Iraque.
O Conselho de Segurança foi ignorado, os países geralmente aliados dos Estados Unidos também. Estados Unidos e Grã-Bretanha arvoraram-se a atacar um país sem declarar guerra e passando por cima da ONU. Não é a primeira vez. Quando preparavam a ação militar em Kosovo, a província iugoslava que quer ser independente, esses dois países insistiam em que a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar) não precisava de autorização do Conselho de Segurança da ONU para bombardear a Iugoslávia.
Raciocínios como esse levarão a ONU e seu Conselho de Segurança à inutilidade. Os Estados Unidos poderão fazer o que quiserem sem necessidade de aprovação da comunidade internacional. A Otan - dominada pelos norte-americanos - poderá intervir em qualquer país sem precisar do beneplácito da ONU.
É natural que os países que ainda pretendem exercer algum papel no cenário mundial, apesar da absoluta e indiscutível hegemonia norte-americana, resistam a isso. No episódio dos bombardeios ao Iraque, a Rússia, a França e a China foram os focos maiores de resistência à ação militar unilateral. A Rússia, aliás, exerceu o mesmo papel na questão de Kosovo, exigindo o aval da ONU para que a ação militar fosse desencadeada. Nenhum desses três países, ainda que todos sejam potências nucleares, tem condições de se opor militarmente aos Estados Unidos. Nenhum deles tem o poder econômico e a influência cultural que os norte-americanos exercem sobre outros países.
Por isso, seus protestos parecem inócuos. Os Estados Unidos não deixariam de bombardear o Iraque (e qualquer outro país) por causa de protestos da Rússia ou da França, nem se importam com o mal-estar causado no Conselho de Segurança e em vários países do mundo. É a lei do mais forte. Mas, de qualquer maneira é bom saber que há resistências às ações unilaterais de guerra e não apenas posições submissas como a da Grã-Bretanha e, infelizmente, a do Brasil.
- HÉLIO DOYLE é jornalista em Brasília

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