O governo federal anunciou a criação de mais duas mil vagas para residência médica até 2011. Instituída pelo Decreto nº 80.281, de 5 de setembro de 1977, a residência é uma modalidade de ensino de pós-graduação destinada a médicos, sob a forma de curso de especialização. O próprio Ministério da Educação (MEC) recomenda que o curso deve ser feito ''sob a orientação de profissionais médicos de elevada qualificação ética e profissional''.

Parte das vagas anunciadas pelo governo deve ser criada no Norte e no Nordeste do País, onde há carência de profissionais. A meta é fazer com que os médicos optem por fixar-se na região após o término do curso. Presidente do Sindicato Médico do Norte do Paraná, José Luiz de Oliveira Camargo alerta que é preciso cuidado na hora de escolher onde estudar.

E acrescenta que, em cidades pequenas, o trabalho do médico acaba se tornando instrumento de voto e dispara: ''Residência médica não tem nada a ver com interiorização do médico. Interiorização do médico é uma política governamental que está sendo discutida para tentar fazer com que médicos, principalmente aqueles que estudam em escolas públicas, dediquem um ou dois anos de seu trabalho em benefício social. Isso não é residência.''

Por que os médicos se concentram em grandes regiões mesmo algumas estando saturadas?
Nos grandes centros há serviços de melhor qualidade, maior incidência de solicitação de serviços de todo tipo e a remuneração dos serviços é melhor. Tem o outro fator que é a qualidade de vida.

Algumas cidades menores mesmo oferecendo salários altos não conseguem preencher a vaga. Por que isso acontece?
Um dos fatores que se leva em consideração é a qualidade de vida que a pessoa tem. A pessoa vai estudar para melhorar sua formação e para começar a estruturar sua vida futura, patrimonial. Nos locais pequenos as perspectivas de uma organização familiar, de estruturar a vida econômica são mais restritas.

Falta vocação?
Não sei se falta vocação. Acho que vocação é uma palavra que antes era muito ligada com a atividade médica. Hoje em dia concordo que precisa de um pouco de vocação, mas já não é o fator mais importante. Hoje tem outros fatores que interferem na escolha da profissão da medicina.

Por exemplo?
Influência familiar, manutenção de um status de trabalho familiar ou por orientação pessoal. Hoje em dia as pessoas não escolhem mais a profissão por vocação.

O senhor acha que o aumento de vagas para residência médica nas regiões Norte e Nordeste, que são as mais necessitadas agora, vai resolver esse problema?
Temos que conceituar algumas coisas. A residência é um curso de formação e de assimilação de conhecimentos. Não adianta abrir residência em cidade pequena. Residência é o falso nome dado por algumas estruturas governamentais para poder interiorizar o médico. A residência médica, no sentido lato da compreensão do nome, é um curso de especialização. Na forma como está sendo feito por algumas estruturas do governo é para o médico prestar serviço, não é para aprender. Menos aprender e mais prestar serviço.

A qualidade do ensino influencia a carência de médicos em algumas regiões? Algumas instituições têm o ensino muito fraco e os alunos não conseguem ser aprovados nas provas da residência.
Como todo tipo de formação também na medicina algumas escolas deixam a desejar. Evidentemente, se a escola forma alunos com nível de conhecimento baixo eles têm menos condições de ser aprovados em concursos de residência. Há que se salientar que o concurso para residência médica - as reconhecidas pelo Ministério da Educação - tende a ser nacional. Se isso se efetivar essas diferenças de qualidade irão aparecer mais. Os melhores vão conseguir as colocações nos locais específicos e de melhor qualidade também.

É feito algo em relação às faculdades que não oferecem ensino de boa qualidade?
Isso é obrigação do MEC, que está tão assoberbado que não tem cumprido como devia essa função. Há muitas escolas que não formam profissionais de qualidade. Realmente estamos muito preocupados e as entidades associativas médicas estão cobrando uma atitude no sentido de exigir que as escolas médicas tenham como docentes pessoas com titulação e, aí sim, com vocação. Porque professor não se improvisa, professor - principalmente de medicina - tem que ter uma vocação para ensinar, tem que ter dom, e isso é o que está faltando.

O que é preciso ser feito para resolver a falta de médicos. Só o aumento das vagas de residência é suficiente?
As vagas de residência não têm nada a ver com a falta de médicos. Se a residência em determinado local oferecer elementos que interessem à pessoa permanecer naquele local, sob o ponto de vista de bom exercício profissional, de qualidade de prestação de serviços e de remuneração compatível, evidentemente que ela vai ficar.

Não pode o governo propor interiorização da medicina e praticar preço vil naquilo que ele paga, que é o SUS (Sistema Único de Saúde). Como é que pode o governo pretender que os médicos se fixem em cidades pequenas se ele quer pagar perto de R$ 7 por consulta? Há que se mudar a política de atenção à saúde, incluindo nessa mudança da política o aspecto do pagamento necessário, não vil, que é o que o governo pratica.

O problema no Brasil é a quantidade de médicos ou a má distribuição dos profissionais?
Má distribuição. Hoje nas comunidades pequenas a falta de médicos é notória. A assistência à saúde nas cidades de pequeno porte passou a ser um instrumento de voto e por isso há muitas cidades destituídas de profissionais. O político quer influenciar naquilo que o médico faz, como ele trabalha, no quanto ele ganha. A maior parte dos médicos não se presta a isso.

A questão então não é abrir novas vagas, é preciso ter bons salários e condições de trabalho também.
Sim, o problema não é vaga, o problema, para que o médico tenha interesse primeiro em estudar e se qualificar, é que tenha bom serviço, bons professores. Segundo, para o médico se fixar no lugar tem que receber incentivos porque ele se forma já com uma certa idade, quando a pessoa já começa a pensar em estruturar uma família.

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