Membros da comunidade acadêmica da Universidade Estadual de Maringá (UEM) participam hoje de debate sobre a implantação do sistema de cotas da instituição, a partir das 14h, no Restaurante Universitário. Entre os debatedores, estarão representantes da Comissão de Direitos Humanos da OAB de Maringá, além de professores da universidade. O sistema incluirá apenas estudantes das escolas públicas, com 30% das vagas reservadas. Afro-descendentes não fazem parte da política de cotas. O assunto está causando tanta polêmica na instituição que outros duas reuniões estão marcadas para a próxima semana.

Em entrevista à FOLHA, a vice-presidente da empresa júnior Logus, do curso de Ciências Sociais da UEM (organizadora do debate), Ligia Incrocci, afirmou que as decisões sobre a implantação do sistema, que deve começar a valer no próximo vestibular de inverno, foram tomadas sem ouvir a opinião da comunidade universitária. ''A parte da UEM que participa da discussão é de 2% no máximo, então não dá para assumir isso como opinião geral'', contesta.

Como está a questão das cotas na UEM? O que já foi discutido até agora?
A discussão sobre o sistema de cotas na UEM começou em 2004, durante um encontro que debatia a inclusão do negro na universidade. A professora e pró-reitora de Ensino Sônia Benitez gravou e transcreveu os debates do encontro, enviando relatório para o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEP), que é quem decide sobre o vestibular. Em 2005, foi criada uma comissão para recolher argumentos contrários e favoráveis à implantação das cotas. Em 2007, o relator mostrou um parecer contrário à aprovação do sistema, mas esse relatório não foi aceito em votação. No final do ano passado, foi formada uma nova comissão que decidiu implantar o sistema a partir do vestibular de inverno de 2008, com 30% das vagas destinadas a alunos de escolas públicas, as chamadas cotas sociais.

E a cota para negros?
Não foi aprovada, porque de todos os membros do conselho só sete votaram a favor, enquanto nas cotas sociais 27 membros se mostraram favoráveis.

Qual é a argumentação usada no relatório para não incluir os negros?
A principal argumentação é do professor Itamar Flávio. Ele afirma que não adianta implantar o sistema de cotas, porque a mudança efetiva deveria ocorrer na base do ensino público. Segundo ele, aceitando as cotas, não será feito nada para que o ensino público melhore.

A comunidade universitária está dividida com relação ao sistema de cotas?
O problema é justamente esse. A comunidade acadêmica não sabe muito bem o que está acontecendo. Foi por isso que a empresa júnior de Ciências Sociais resolveu colocar este debate em pauta. Esse debate que ocorre hoje é só o primeiro passo do projeto. Durante todo ano vamos realizar atividades para saber melhor qual a opinião dos alunos a respeito das cotas.

O projeto então foi aprovado sem ouvir a opinião dos alunos?
Exato. E a gente quer evitar que aconteça como em outras universidades onde o projeto já está em vigor e os alunos se revoltaram, inclusive com manifestações racistas contra os beneficiados pelas cotas. Com divulgação, sabendo a opinião dos alunos, poderá ser passado um parecer para a reitoria.

Você acredita que os alunos vão se revoltar?
Tem chance de acontecer, mas não dá para prever a reação dos alunos. Até agora, a resposta em outras universidades não foi boa. Nós, que estamos promovendo este debate, não queremos tomar posição a respeito. A gente quer saber o que o resto da comunidade vai achar, inclusive a população de Maringá. Essa é uma decisão que não interfere somente na vida dos cinco que decidiram dentro da UEM, mas interfere na vida de toda a cidade, então vamos colocar isso em jogo. Até para evitar que estes alunos sejam discriminados dentro da universidade.

Qual a posição dos professores?
O relator que negou a implantação de cotas argumentou que os professores não têm conhecimento suficiente para aceitar ou não a proposta. Entre os professores ativos da instituição, a grande maioria é favorável às cotas. Só que a parte da UEM que participa da discussão é de 2% no máximo, então não dá para assumir isso como uma opinião geral. Por isso que achamos que houve certa negligência, já que todo mundo deveria ter sido consultado.

Já houve alguma manifestação contrária dentro da universidade, como protesto de alunos?
Aqui na UEM não, até porque não tem quase ninguém sabendo que as cotas foram aprovadas. Isso não foi divulgado. O debate de hoje é a primeira forma de divulgação que vai ter, e a partir daí a tendência é que a comunidade tome uma posição para levar o assunto adiante. Mas, independente disso, no meio do ano já está confirmada a implantação do sistema de cotas. Só no próximo ano podem ocorrer mudanças a partir do que for discutido.

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