RESERVA DE MERCADO - Cinema nacional: obrigação ou opção?
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sexta-feira, 04 de fevereiro de 2011
Érika Gonçalves <br> Reportagem Local 
A cota de tela surgiu na década de 1930, com o objetivo de promover a competitividade da indústria cinematográfica nacional. Desde então, tem sido reeditada. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no final do mandato, assinou o decreto nº 7.414, que prevê para este ano uma cota de tela de três a 14 filmes nacionais no cinema. O número é baseado na quantidade de filmes produzidos em 2010.
A polêmica continua na TV paga. O projeto de lei 116/2010 em tramitação no Congresso Nacional prevê que as emissoras transmitam no horário nobre três horas e meia de conteúdo nacional por semana - metade deve ser feito por produtora brasileira independente. A reclamação é geral entre as empresas, inclusive com o argumento de que a exigência resultará em aumento no preço dos pacotes.
É conhecida a resistência de parte dos espectadores ao cinema nacional, ainda influenciados pela era da pornochanchada. A nova safra, no entanto, tem atraído maior público. O que leva ao questionamento: ''Afinal, a reserva de mercado é necessária?'' Para o cineasta Caio Cesaro, as cotas são positivas porque permitem que mais espectadores conheçam o conteúdo da produção nacional.
A reserva de tela é uma boa alternativa para promover o cinema nacional?
É uma boa alternativa porque a indústria americana criou um sistema que vai da produção à exibição. Ela tem investimentos na produção, depois controla a distribuição e também a exibição. Há diversas salas de cinema que foram construídas com recursos da indústria hollywoodiana e isso mesmo no Brasil. Eles (estúdios norte-americanos) têm como saber, quando vão fazer um filme, onde esse filme vai ser exibido. Isso facilita na negociação, no financiamento, nos patrocínios. Foi a partir disso também que eles conseguiram dominar quase o mundo todo, em termos de produção e exibição.
A reserva se faz necessária, dentro de determinados parâmetros. O que se deve discutir é o limite, o mínimo e o máximo dessa cota de tela. Ela é fundamental para que as pessoas conheçam e saibam que existe esse conteúdo. A gente vê hoje uma grande quantidade de filmes brasileiros, como, por exemplo, ''Chico Xavier'', ''Lula - o Filho do Brasil'', ''Tropa de Elite''. Isso é consequência desse processo de reserva. É a partir disso que o cinema brasileiro, dentro da chamada retomada, foi ganhando espaço. As pessoas foram vendo, foi desmistificando aquela ideia de que o cinema brasileiro era só pornochanchada, e isso vai se ampliando. Hoje há algumas salas que exibem muito mais do que a reserva de tela prevê.
A pornochanchada ainda afasta o espectador do cinema?
Eu fiz em Londrina, de 1999 a 2002, um projeto chamado Sessão Brasil, que tinha como proposta levar filmes brasileiros para a cidade. Acontecia de os espectadores irem até a bilheteria do cinema e a própria atendente dizer: ''Olha, é filme brasileiro, quer desistir?''. Aí a pessoa às vezes desistia e às vezes não. Isso ainda existe. É óbvio que de lá para cá muito já foi dissipado, até em razão de filmes como ''Se Eu Fosse Você'', ''Tropa de Elite'', ''Chico Xavier''. Esses filmes, à medida que vão alcançando sucesso de público e crítica, vão ajudando a desmistificar isso.
O que há de fato é que todos os filmes americanos, em menor ou maior grau, seguem uma fórmula. Já os filmes brasileiros têm forma narrativa mais livre, se aproximam do filme europeu. Esse contato muitas vezes causa estranhamento, mas se a pessoa persistir nesse hábito vai começar a entender como isso funciona e a ver valor no conteúdo que está assistindo.
O que mais afasta as pessoas do cinema brasileiro?
O alto preço dos ingressos e o baixo número de salas - são cerca de 2,4 mil no País, concentradas em shopings, em grandes centros urbanos. Se pensarmos na população brasileira, uma grande parte prefere assistir a filme dublado. Quando vai ver um filme nacional ele já não tem o desafio de ler a legenda.
As distribuidoras estão preparadas para um aumento de demanda?
Quem faz isso dentro de um sistema e já tem uma rotina vai ter menor percentual de erro do que quem não está fazendo. Estamos falando da questão econômica. Se houver uma reserva maior, as empresas que dominam esse processo, mesmo distribuindo filmes americanos, pegariam esses filmes brasileiros, porque teriam colocação em termos de mercado.
Existe também a cota para a TV paga. Isso fere o direito do consumidor, que compra um conteúdo e terá outro?
Os canais vivem lançando novas séries. Quando eu contratei um pacote da TV passavam algumas séries, hoje passam outras e nem por isso eu estou me sentindo lesado. Acabou aquela série ou o canal resolveu trocar. Então eu não vejo nenhum problema nesse tipo de coisa. Tudo é uma questão econômica. Não vão tirar uma série com 50 pontos de audiência e colocar uma que tem um, aí é errado. E isso gera muitos empregos também, porque a velocidade da TV é muito maior do que a do cinema. O nível de geração de emprego é muito maior e também temos muitas histórias a serem contadas. Mais do que reserva, gosto de ver isso como uma abertura.


