Quando o assunto é água, o Brasil tem um verdadeiro tesouro sob os pés. No país está a maior parte das reservas do Aquífero Guarani (840 mil km2), enquanto 225 mil km2 ficam na Argentina, 71 mil km2 no Paraguai e 58 mil km2 no Uruguai. Cuidar dessa área passa a ser motivo de sobrevivência, quando apenas 3% da água existente no planeta é doce. Comissão está criando um programa de proteção e orientação, que será apresentado até janeiro de 2009.

Em entrevista à FOLHA, Luiz Amore, secretário-geral do Projeto Aquífero Guarani, falou da importância de informar o público sobre o uso adequado das águas subterrâneas que integram a região. ''Para gestionar, é preciso conhecer.''

O que é o projeto?
Criado em 2003 a partir de uma demanda das universidades em avançar seus conhecimentos sobre o sistema Guarani, o projeto foi incorporado pelos governos argentino, brasileiro, paraguaio e uruguaio para que, além de levar informação à sociedade, criar ferramentas concretas de gestão e proteção do aquífero. É executado em nível regional pela organização dos estados americanos, que tem capilaridade nos quatro países, com recursos de um fundo mundial para o meio ambiente. São US$ 13 milhões do Banco Mundial e igual parcela em contrapartida dos países.

Quais informações o projeto reuniu até agora?
Não há grandes crises do ponto de vista fronteiriço, mas existem aspectos a serem cuidados. Um deles é o respeito à distância mínima na implementação de poços para que não haja interferência de um poço ao outro, como redução da vazão ou diminuição da temperatura da água. Oficialmente estão registrados 7 mil poços em todo o Aquífero Guarani, mas podem existir mais, pois muitos ainda são desconhecidos. Também é preciso diminuir a distância entre a formulação e implementação das políticas estaduais e as políticas de uso e ocupação do solo urbano e rural, pois a política de desenvolvimento territorial pode, muitas vezes, impermeabilizar ou poluir linhas de recarga de água no aquífero. Outra coisa importante que foi descoberta é que as áreas de afloramento não são apenas áreas de recarga, mas também de descarga.

Na prática, como funciona o projeto?
É fundamental o vínculo com as comunidades locais, pois é em nível local que a gestão da água subterrânea é mais crítica, já que o poço é um fenômeno restrito à área em que a comunidade vive. É importante também vincular as políticas de água em geral, respeitando a soberania dos países quanto à exploração da água subterrênea, que é nacional no caso do Paraguai e do Uruguai, estadual no caso do Brasil e das províncias no caso da Argentina. O Projeto propôs quatro instrumentos fundamentais para a gestão do aquífero: criação de um sistema de informações, de uma rede de monitoramento, de modelos matemáticos, além da importância de estabelecer comissões locais onde há conflitos.

Qual a importância do aquífero para os países?
A maior parte das reservas do Guarani, 840 mil km2, estão em território brasileiro, enquanto 225 mil km2 ficam na Argentina, 71 mil km2 ficam no Paraguai e 58 mil km2 ficam no Uruguai. Apenas 3,2% do aquífero estão em terras uruguais, mas lá as águas são utilizadas em 25% do território, numa área onde a população sofre com a seca. O aquífero é a água que está infiltrada nos poros do solo, empapada na rocha. Sua realimentação é muito lenta: é possível secar um poço sem que os da volta se sequem, pois a transmissividade é muito restrita. E a recarga dos poços é a água da chuva, e não só de hoje, mas de anos geológicos. Diferente de água superficial, na qual pode-se colocar uma superbomba para fazer um superabastecimento, a água subterrânea é naturalmente destinada ao uso difuso, em vários pontos. Não é certo pensar que o aquífero é a grande solução para a falta d'água, mas as águas podem ser usadas por muito tempo e com boa qualidade em pequenas comunidades.

Qual a importância do Projeto para a gestão das águas subterrâneas nesta região específica da América Latina?
O Projeto Aquífero Guarani colocou na agenda política dos países a questão das águas subterrâneas e do próprio aquífero. Houve massificação da informação, importante para o processo de tradução do conteúdo técnico das 16 mil páginas do projeto para as escolas, imprensa, políticos, gestores de maneira geral. A sociedade só pode fazer a gestão daquilo que ela conhece.

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