Rescaldo da crise
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domingo, 10 de março de 2019
O Brasil viveu de meados de 2014 ao final de 2018 uma profunda crise econômica, que deixou um legado de muito sofrimento para empresários e trabalhadores da iniciativa privada. O desemprego atingiu marca recorde e o número de empresas fechadas também.
Quem empreende sabe o quanto é difícil levar adiante um projeto empresarial. É preciso muito trabalho, persistência, abnegação e muita resiliência para não desistir frente aos obstáculos que vêm de todos os lados, principalmente num país que não valoriza quem trabalha ou quem produz. A crise ao que tudo indica está no fim, hoje já conseguimos ver um futuro mais colorido, o otimismo está voltando e nasce entre nós a crença em um novo Brasil.
Uma crise como essa não se supera de uma hora para outra. A curva que indica o desenvolvimento econômico pode mudar de direção de forma rápida, mas ela indica apenas uma tendência. As empresas continuarão remando num oceano de crise por um longo tempo. O simples fato de melhorar os negócios não significa que todas as feridas criadas na crise estarão cicatrizadas.
O setor produtivo necessitará de um tempo para ajustar a rota, retomar as condições normais de trabalho, tapar todos os buracos deixados pela recessão, recuperar os talentos que perdeu para garantir a sua sobrevivência e só então poderá comemorar sua inteira recuperação. Não será da noite para o dia, vai demandar muito esforço e muito investimento.
O mais triste é que tudo isso podia ter sido evitado. Não tivemos uma crise gerada pela economia, mas sim uma grande crise política que levou a economia para o colapso. Falando da recuperação lenta, vale lembrar que, logo após a crise americana da bolha imobiliária, fui aos Estados Unidos. E, em reunião numa empresa, ouvi os executivos dizerem que de acordo com um estudo encomendado os negócios só voltariam à condição anterior depois de sete anos.
Eu achei um tempo muito longo, mas depois constatei que eles estavam certos. Os Estados Unidos só voltaram à condição anterior em 2014/2015, ou seja, sete anos depois da eclosão da bolha. Quando lembro desse fato, fico preocupado com as nossas organizações que também levarão um tempo longo para recuperação total.
Na minha opinião, nossa crise foi mais longa e mais profunda que a americana. Não bastasse a crise que vínhamos enfrentado desde meados de 2014 (logo após a Copa do Mundo no Brasil), ainda tivemos que passar por um impeachment da presidente, uma greve dos caminhoneiros e uma eleição das mais disputadas dos últimos tempos.
Tudo isso contribuiu para que os negócios que já estavam mal piorassem ainda mais. Como rescaldo da crise temos hoje falta de matéria-prima, material secundário e serviços em vários setores, impedindo que as empresas se desenvolvam e aproveitem da recuperação da economia na velocidade desejável.
É nesse momento que o Brasil dá sinal de recuperação da economia que damos conta da desorganização imposta pela crise econômica. Temos poucas empresas fortes no Brasil, a maioria foi atingida de cheio pelos impactos negativos trazidos pela crise e por esse motivo está fragilizada. A recuperação vai precisar de tempo, de um mercado forte, estabilidade nos negócios, respeito aos contratos e de uma política econômica que valorize e incentive quem produz.
Vai precisar também de uma desburocratização e simplificação dos serviços públicos, outro entrave para o setor produtivo e que hoje penaliza as empresas e dificulta o seu crescimento, além, evidentemente, das reformas da Previdência e tributária. O Brasil precisa cair na real e buscar seu verdadeiro lugar na economia mundial, abrindo espaço para as empresas brasileiras participarem em condições mais favoráveis dos negócios internacionais.
Que Deus proteja o Brasil.
Ary Sudan, industrial em Londrina



