RÉQUIEM PARA TIM
Embora se aguarde o resultado de um doloroso exame de DNA, tudo indica que seja do jornalista Tim Lopes, da TV Globo, os restos de um corpo humano carbonizado, encontrado no alto da Favela do Cruzeiro, bairro da Penha, Rio de Janeiro. Foi o lugar onde ele desapareceu, dentro dos domínios de um certo Elias Maluco. O traficante determinou a execução do jornalista, segundo contou-me o inspetor Daniel Lopes, da 22ª delegacia distrital da cidade. O inspetor revela: através de seus informantes, soube que o jornalista foi condenado à morte e levado para um buraco entre pedras,que os traficantes chamam sarcasticamente de microondas. O corpo teria sido queimado.
Tim especializou-se no jornalismo investigativo. Coisas que as autoridades preferem não tomar conhecimento e as instituições da sociedade optam por encobrir, num exercício de omissão e condescendência, são o ponto de partida para se colocar o interesse público acima de tudo. É preciso saber andar nas sombras, camuflar-se, movimentar-se com discrição. Esta, a grande arte de Tim Lopes: partir do zero e chegar ao infinito. Foi assim com uma reportagem sobre Feira de Drogas, onde maconha e cocaína eram vendidas como se os vendedores fossem comerciantes de feira-livre. Tim fazia isso por trás das câmeras, roendo o osso e deixando o filé (no caso, a cara na telinha, o ritual do off e a passagem, que na linguagem de TV marca a assinatura da matéria) para outro. Jornalistas que trabalham assim costumam trocar figurinhas entre si. Carregam no peito os segredos das ameaças e restrições, das incompreensões e maledicências, como se fossem confidentes um do outro. Tim estendia a mão para mim no Rio. E eu para ele em São Paulo.
A matéria que Tim foi fazer era de alto risco. Baile funk regado a pó branco e sexo explícito com meninas adolescentes. A população tentou de tudo: Polícia, Justiça, Conselho Tutelar etc. Ninguém fez nada. Bateu-se à porta da TV. E lá foi o nosso Tim ver do que se tratava. Por três vezes esteve no local. Na quarta, sumiu. Só para você entender melhor: a Unesco, órgão das Nações Unidas para assuntos de Educação, Ciência e Cultura, pesquisou 33 mil alunos, 10 mil pais e 3 mil professores em 14 capitais brasileiras. Descobriu coisas assim, no Rio: professora despertando menino dormindo em sala de aula e sendo informada de que estava com sono porque não foi possível dormir à noite com o barulho dos tiros na favela; escolas que por causa da troca de chumbo inserida no cotidiano instruem as crianças para buscarem proteção em situação de perigo, escorregando feito cobra no chão; no Rio, especificamente, 42% dos estudantes não se concentram na aula por causa da violência, outros 27% perderam a vontade de estudar e 7% faltam às aulas com medo da violência dentro da própria escola. Tim Lopes foi atrás disso que você acaba de ler. Ao que tudo indica, mataram-no para não denunciar que traficante é bandido e droga apenas símbolo de desgraças pessoais e sociais. Repórter intrépido, audaz, corajoso. Repórter-herói. Saudades e dor, amigo.





