Para muitos londrinenses, estes meses de maio e junho estão significando um período de grandes preocupações em relação aos destinos da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Muitos aspectos administrativos da vida universitária estão sendo, há mais de 30 dias, objeto de denúncias públicas e de investigações. Felizmente as atividades acadêmicas não foram interrompidas. Mas temo que em breve elas passarão a sofrer sérias consequências pois são muito estreitas as relações acadêmico-administrativas em uma universidade.
Visando analisar os avanços acadêmicos verificados na UEL nos últimos anos eu havia decidido, há algumas semanas, escrever um artigo para registrar a data do segundo ano da morte da professora Ana Ito, ocorrida no dia 28 de junho de 1999. Ela, companheira leal e afetuosa de muitas lutas sanitárias nos anos 70 e 80, foi a grande liderança responsável, nos anos 90, pelas mudanças pedagógicas que hoje são uma realidade nos cursos da área da saúde, e dirigia, quando faleceu, o processo de mudanças e de melhoria da qualidade em toda a área de ensino da UEL, pois era a nossa coordenadora de ensino de graduação.
Evidentemente que, diante dos recentes acontecimentos, perde sentido a minha intenção inicial. Hoje, o que importa para a sociedade e para a comunidade universitária, é a rigorosa apuração das irregularidades cometidas e a enérgica punição de todos os culpados. São muito importantes as atividades desenvolvidas em torno dos 10 projetos estruturantes executados pela CAE, como a integração das atividades de acompanhamento e de gestão; a revitalização das instalações e da infra-estrutura; a reorganização funcional; a informatização do controle acadêmico; a institucionalização da avaliação dos cursos; o desenvolvimento do projeto pedagógico institucional; a diminuição dos índices de evasão; a ampliação de vagas; a autonomização do vestibular; o combate ao trote violento. Mas, no momento, toda a energia deve ser canalizada para o saneamento da área administrativa da UEL.
Ana e eu estivemos juntos também na construção da aliança política e da plataforma de trabalho que resultou na gestão UEL Unida, encerrada com minha renúncia ao cargo de vice-reitor. Estivemos juntos estudando, discutindo, propondo e nos responsabilizando por mudanças profundas não só em relação aos projetos estruturantes, mas em relação a várias outras dimensões da vida universitária. Tínhamos um projeto alternativo de universidade e tratava-se de capacitar o maior número possível de agentes (professores, funcionários, alunos) da mudança. E com esse objetivo trabalhamos com afinco. Enquanto isso, hoje me dou conta, outros que continuam vivos, alguns ‘‘muito vivos’’, realizavam, às nossas costas, atividades menos nobres.
Depois dos depoimentos, interrogações e lembranças das últimas semanas é inevitável uma pergunta crucial: valeu a pena? Valeu a pena o trabalho estafante de Ana à frente da CAE? Valeu a pena o trabalho nos outros doze meses, em que eu, substituindo-a e mais uma série de professores, alunos, funcionários e dirigentes, demos andamento aos projetos que ela deixou?
Estou convencido de que este não é o momento propício para responder a essas questões. As respostas corretas dependem da necessária isenção de ânimos e de uma avaliação objetiva das conquistas obtidas e dos erros cometidos pela gestão UEL Unida (10 de outubro de 98 a 12 de junho de 2001). Vamos continuar ‘‘aprendendo a aprender’’ e aprimorar nossa ‘‘paciência pedagógica’’, diretrizes de ação que a Ana tanto prezava e que me parecem muito apropriadas para que a justiça na UEL seja uma realidade.
Precisamos evitar prejuízos para a área acadêmica. Mas para isso há urgência na rigorosa apuração das irregularidades e na enérgica punição dos culpados. Além, obviamente, da antecipação do processo sucessório, escolhendo-se novo reitor e novo vice-reitor tão logo o Conselho Universitário julgue ter reunido os elementos suficientes para dar esse encaminhamento ao problema da administração. Administração que, depois das últimas medidas da reitoria (re-lotação do ex-chefe de gabinete do reitor no Cesa e designação do diretor do Cesa para o cargo de vice-reitor), adquiriram os contornos de um triunvirato.
Enquanto isso, vamos acumulando evidências e registrando as lembranças, como Ana Ito nos ensinou no seu poema ‘‘Cartas’’: ‘‘Amarela-se o papel/Passa-se o tempo/Muda-se a história/Mas nada há de apagar/O escrito nas cartas.’’
- MARCIO ALMEIDA é médico, professor e ex-vice-reitor da UEL

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