Desde que recebeu a notícia da cassação de seu mandato, na noite de anteontem, o senador Roberto Requião (PMDB-PR) não fala em outra coisa: a decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE) significa ‘‘o lançamento da minha candidatura a governador em 1998’’. A intenção é clara: o senador pretende usar eleitoralmente o episódio, qualquer que seja o desfecho do processo.
Um de seus advogados, Carlos Frederico Marés, disse ontem que apenas aguarda a publicação do acórdão do TRE para entrar com recurso, que tem efeito suspensivo. Mas mesmo que o TSE confirme a decisão de primeira instância, o senador não pretende mudar de planos. ‘‘Minha candidatura a governador, com esse lançamento fantástico que o TRE me proporcionou, é irreversível’’, garante. Mesmo que o Congresso Nacional aprove a reeleição para todos os níveis. ‘‘O TRE me deu forças que nem eu mesmo sabia que tinha para disputar a eleição’’, avalia.
‘‘Seria um prazer disputar com o Lerner. Prefiro ele ao ‘tigre de pelúcia’’’, afirma, referindo-se, segundo ele próprio, ao prefeito de Curitiba, Rafael Greca, provável candidato do PDT a governador caso a reeleição não seja aprovada.
Amigos e partidários do PMDB - entre eles o deputado estadual Caíto Quintana e o vereador Paulo Salamuni, de Curitiba - foram encarregados de organizar manifestações políticas de solidariedade a Requião. Quintana iria mobilizar a bancada estadual. ‘‘Não podemos permitir que isso prejudique a campanha de Requião para recuperar a direção regional do partido’’, diz Quintana.
O senador afirma que não pretende se dobrar à decisão do TRE. ‘‘Não sou de porcelana. Minha vontade é feita de aço, temperada com 2,3 milhões de votos’’, reagiu.
O TRE cassou o mandato de Requião, por quatro votos a zero, numa sessão secreta que durou duas horas e meia. A ação, que tramitou em segredo de Justiça, foi patrocinada pelo ex-deputado Hélio Duque, presidente regional do PSDB, que disputou e perdeu a eleição para o Senado em 1994. Segundo Duque, Requião teria usado recursos públicos quando ainda era governador, na preparação de sua campanha a senador. ‘‘O volume de provas que conseguimos é suficiente para fazer com que o TSE ratifique a decisão do TRE’’, afirma Duque.
As acusações são as seguintes: Requião usou para promoção pessoal o programa de TV e rádio intitulado ‘‘Conversa franca com o governador’’ e a estrutura do Banestado para encaminhar cartas de cunho eleitoral aos correntistas do banco, fez propaganda personalizada em folhetos e cartazes do Projeto Povo, usou dinheiro público para imprimir 60 mil exemplares da cartilha ‘‘Há um outro caminho’’, publicou encarte em jornais do Paraná no dia que deixou o governo com propaganda pessoal e fez uso de tropa militar para postar correspondências aos eleitores na última semana de exercício do mandato de governador.
Requião diz que as denúncias são ‘‘absolutamente ridículas’’ e que o processo é uma ‘‘aberração’’. Alega, entre outras coisas, que o programa de TV e rádio tinha o mesmo formato dos programas do ex-presidente José Sarney e do atual, Fernando Henrique Cardoso, e que a cartilha ‘‘Há um outro caminho’’ foi produzida pelo Ipardes com dados técnicos, cabendo a ele apenas escrever o prefácio.
O senador afirma que, por trás da decisão do TRE, está o ‘‘espírito vingativo’’ dos juízes, ainda revoltados pelo fato de não terem recebido os aumentos salariais que pleiteavam quando Requião era governador.

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