Requentando a guerra fria
Requentando a guerra fria
Joel Samways Neto
E nós que pensávamos que o maior desafio do próximo século seria resolver a falta de água potável no mundo... Em seguida à preocupação ecológica, decerto os viventes do Terceiro Milênio iam esquentar a cabeça também com o multifacetado crime organizado (drogas, prostituição, corrupção do poder público etc.).
De repente, no finalzinho do século 20, eis que o planeta se sobressalta com a possibilidade de encarar uma outra era de conflito nuclear, com todas as suas terríveis consequências para a humanidade. Pelo jeito, não bastou o aprendizado da guerra fria, que impôs a divisão do Leste-Oeste, cujo símbolo máximo foi o Muro de Berlim. Essa disputa entre o totalitarismo e a democracia fez crescer assustadoramente a tecnologia da destruição, a indústria armamentista. Os adversários criaram arsenais nucleares. O Oeste corria contra o Leste, medindo força para saber quem poderia destruir o planeta mais vezes do que o outro poderia fazê-lo. E a humanidade, espectadora, telespectadora, ficou sofrendo a angústia de não saber, afinal de contas, quantas vezes o vencedor mataria.
O totalitarismo caiu de podre. A democracia vai se mantendo viva, embora com frágeis garantias, entregue que está a gestores individualistas.
Apesar disto, as coisas pareciam estar bem. O Velho Mundo já acenou para um novo horizonte de esperança, concluindo o acerto para a instalação do mercado comum, a chamada Casa da Europa, com moeda própria e tudo. Quer dizer, em nome da sobrevivência, países difíceis, complexos, desiguais, começaram a se aliar, primeiramente em termos econômicos, para, depois, ampliar os vínculos de relacionamento com vistas à plenitude da globalização (que, pode não parecer à primeira vista, mas é do tipo todos por todos, sim). Isso era impensável há menos de cinco anos! Essa acomodação motivou outras alianças, noutros continentes, como o Nafta e o Mercosul - seguramente, o começo da Casa das Américas! -, e criou mais possibilidades de um grande acordo entre países asiáticos, africanos, enfim, a tal da Nova Ordem Mundial.
Ora, ora. Nós, aqui, de prontidão para viver num planeta sem fronteiras, cada um capaz, potencialmente capaz, de se tornar cidadão do mundo, e eis que nos aparecem a Índia e o Paquistão, com suas experiências nucleares.
Esses dois países têm uma relação tipo nunca se deram e agora deram de brigar. Logo na terra onde nasceu e viveu um dos homens mais célebres deste século: Mohandas Gandhi. O líder espiritual indiano que pregava a não-violência, o amor aos inimigos, a resistência civil ao imperialismo inglês, porém sem sequer usar de ódio em pensamento. Gandhi dizia: Quem tem a força moral não precisa recorrer às armas. E com essa força moral, com a força de suas idéias, de suas ações, conseguiu libertar seu país.
A Índia era então uma colônia britânica com 250 milhões de habitantes - povo que chamava Gandhi de Grande Alma (Mahatma). E o líder espiritual se empenhou em uni-los em torno desse objetivo, o de tornar o país independente, mas dentro dos princípios da não-violência. Em 1941, lançou o slogan do movimento pró-independência da Inglaterra: Deixem a Índia como patrões. Os colonizadores ficaram irredutíveis. Gandhi resolveu jejuar até morrer. A cada dia que passava, ele ia ficando mais fraco, e os 250 milhões de indianos iam precipitando uma convulsão social. Seis anos mais tarde, a Índia estava livre.
Porém, ainda antes desse desfecho, hinduísmo e islamismo, as duas religiões que congregavam o maior número de adeptos entre os indianos, prenunciavam outra divisão. Diferenças tão acirradas entre ambos, que, no ato da independência da Índia, foi necessário criar o Paquistão - este para os muçulmanos, aquela para os hindus. Mesmo assim, continuaram brigando, e Gandhi teve de jejuar novamente. Isso fez com que os governos da Índia e do Paquistão prometessem manter a paz. Paz que durou até o dia em que assassinaram o Mahatma.
A causa da crise, obviamente, foi o fudamentalismo de lado a lado. O mesmo fundamentalismo que agora promete desafiar a convivência pacífica das gerações do século 21.
O pior é saber que tratados internacionais, embargos econômicos, retaliações de toda ordem pouco conseguirão enquanto cada ser humano mantiver, dentro de si, fragmentos de fundamentalismo. Fundamentalismo que contém o preconceito religioso, social, sexual, a intolerância, o sectarismo, a exclusão etc. - modulações do velho conhecido egoísmo.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná.





