República Sindicalista
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de janeiro de 2003
Nivaldo Cordeiro 
Uma das formas mais devastadoras assumidas pelo monopólio é aquela representada pelos sindicatos dos trabalhadores ao impor regras que constrangem as liberdades de mercado, sempre em prejuízo dos consumidores e daqueles não têm emprego, que estão fora do mercado de trabalho. Com o discurso de beneficiar os menos favorecidos, o eu que se vê é o contrário, a construção de um sistema de privilégios obreiros que conspiram contra a sociedade como um todo.
Os tempos que se abrem no Brasil levam à conclusão de que poderemos ver a multiplicação do poder monopolístico dos sindicatos em todas as esferas de atividade. A mais esdrúxula foi a recente aprovação, na Câmara Municipal de São Paulo, de uma lei que veda a abertura de lojas aos domingos, incluindo aí supermercados. Ora, então porque não fechar também cinemas, teatros e restaurantes? Posso afiançar que um número muito maior de pessoas procura nos centros de compras o que necessitam do que aqueles que buscam formas mais óbvias de lazer. Comprar, nos tempos atuais, não é apenas obrigação, é um passatempo, um entretenimento.
A regra é tão estúpida que não se preocupou em ouvir quem faz o varejo, seus representantes, os lojistas, os trabalhadores. Na maior parte dos casos, o domingo é ou o primeiro ou o segundo dia de faturamento das empresas varejistas. Se um dia seria recomendável fechar se para isso tivesse um motivo seria na segunda-feira um dia morto para a maior parte do comércio, e não o domingo.
Se a lei for levada ao pé da letra, estimo que pelo menos 10% dos empregos nas lojas irão pelo ralo. Além disso, aqueles que vivem de comissões de vendas e têm nas horas extras bem remuneradas importante complemento de salário perderão renda de forma acentuada. Isso vendo do lado dos trabalhadores. Do lado dos empresários, será um desastre: a maior parte das decisões de investimento partiram do suposto de que as lojas abririam aos domingos, cujas vendas podem representar pelos menos 20% do faturamento mensal previsto. Mudança desse naipe é uma violência absurda, uma violação do Estado de Direito, no sentido de que foi feita uma quebra na normalidade legal, de forma imprevisível. A maior parte dos negócios a varejo terão que aumentar as suas margens de lucro, sob pena de operar com prejuízo. O governo também perderá de forma imediata, pois menor volume vendido significa menor arrecadação, não apenas do varejo, mas de toda a cadeia produtiva.
Os maiores perdedores certamente serão os consumidores, que ficarão tolhidos do poder de fazer compras nas suas horas de preferências, terão os preços majorados e terão a sua qualidade de vida piorada.
Quem ganha, então? Supostamente os sindicalistas e os políticos a eles ligados, que acham que estão fazendo um bem à categoria e, assim, angariando votos para as futuras eleições. São cegos, estúpidos. Qualquer balconista de loja, se consultado, não concordará com isso.
Varejo, em qualquer lugar do mundo, é uma atividade sacrificada. Ninguém é obrigado a se manter no setor se não gostar de ''ralar''. Agora, aqueles que ficam é porque gostam e têm no prazer de atender um hobby e uma profissão. Não é uma atividade para preguiçosos.
Se a república sindicalista se instalar no Brasil, a recessão que virá não será pequena e, junto com ela, o empobrecimento geral.
Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração pela Fundação Getúlio Vargas


