Representações de uma profissão em crise
O discurso de que "a educação vai mal" é recorrente na mídia, sendo ainda mais reforçado em épocas de divulgação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Diante desse discurso, duas imagens sobre "ser professor" são comumente divulgadas. De um lado, os docentes são representados como heróis vocacionados, altruístas, salvadores da sociedade, pessoas capazes de enfrentar toda e qualquer adversidade em prol do desenvolvimento de seus educandos. De outro, os professores são vistos como despreparados, negligentes, acomodados e responsáveis pelo desinteresse dos alunos pela escola. Embora as duas representações pareçam divergir, ambas responsabilizam o professor como principal culpado pela condição educacional e contribuem para desvalorização da profissão.
Além dessas representações, várias outras imagens (derrotado, transformador, sonhador, autoritário, coitadinho, terrorista, etc.) circulam diariamente na mídia e nas rede sociais. Algumas dessas imagens podem ainda ser encontradas explícitas ou implícitas em documentos que regulamentam o sistema educacional e documentos que orientam o trabalho docente.
Desse modo, as representações sociais de "ser professor" incidem sobre o trabalho docente, assim como podem afetar as ações políticas para a Educação Básica e para a formação de professores. Se partimos do princípio de que para ser professor basta ter dom, os investimentos em sua profissionalização seriam desnecessários, não seriam? A pesquisa, a dedicação aos estudos, o seu desenvolvimento profissional parecem dimensões não prioritárias nessa visão. Haja vista as iniciativas de aligeiramento da formação docente, como as ações focalizadas na formação a distância - Universidade Aberta do Brasil (UAB) -, o incentivo à formação em cursos técnicos de magistério e a pouca relevância dada à pesquisa em cursos de licenciatura.
Por essa razão, a problematização e a desconstrução de certas imagens sobre a carreira docente são urgentes, se é que primamos pela valorização deste profissional na sociedade. A naturalização de representações que não retratam a realidade do trabalho docente além de contribuir para intensificação de críticas a esse profissional, amenizam a urgência da melhoria de suas condições objetivas de trabalho (baixa remuneração, longa jornada de trabalho, salas superlotadas, falta de material didático e recursos tecnológicos e segue grande lista). Afinal, quais são os recursos necessários para o pleno desenvolvimento do trabalho docente, além do quadro, giz e boa vontade? A mídia parece insistir que basta boa vontade. Seria o professor, então, um "profissional supremo" que não precisa de boa formação e de bons instrumentos para realização de seu trabalho? Não. Precisamos de políticas públicas que atendam às exigências da profissão
Sabemos, no entanto, que as representações sociais são construídas a partir de nossos próprios discursos e atitudes. Assim, também podemos contribuir para que sejam questionadas e transformadas. Nesse sentido, qual é o papel dos professores na transformação das representações sobre sua própria profissão?
Para que essas imagens sejam transformadas, o professor não pode negar que também tem seu papel. Ele precisa reagir a elas, ocupar os espaços de formação de opinião disponíveis, exigir a representatividade de sua classe nas decisões sobre a educação, esclarecer aos alunos, pais e a sociedade em geral os diferentes aspectos que perpassam a realização de seu trabalho, suas dificuldades e limitações. Precisa unir-se enquanto classe trabalhadora, que é, na luta pela valorização de sua própria profissão.
PRISCILA A. DA FONSECA LANFERDINI
é professora da rede pública de ensino do Paraná e doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da UEL
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