REPONSABILIDADE FAMILIAR- 'Tráfico de drogas nunca vai acabar'
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de agosto de 2012
Aline Vilalva <br> Reportagem Local 
Há muito tempo o consumo de drogas deixou de ser um problema que ocorria de forma isolada e transformou-se em uma questão social. Os entorpecentes sempre existiram, mas o uso vem aumentando com o passar do tempo, principalmente por estar relacionado ao poder de compra.
De acordo com o investigador Marcio Rodrigues, especialista em prevenção às drogas, a lucratividade proporcionada pelo tráfico é o principal fator responsável pelo atual cenário. Citando o último relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado há 15 dias, ele aponta que a previsão é de que neste ano as drogas movimentem US$ 650 bilhões em todo o mundo enquanto a corrupção deve gerar US$ 1 trilhão no mesmo período. Já sequestros, roubos e golpes, juntos, movimentarão a US$ 900 bilhões.
Os traficantes não estão aliciando usuários de drogas, mas sim pessoas para vender porque se você perguntar para o seu filho se ele quer fumar maconha e cheirar cocaína, possivelmente ele vai responder que não, mas se perguntar se quer dinheiro, provavelmente vai falar que sim, declara.
Para o investigador, o governo tem a obrigação de promover políticas de prevenção às drogas, mas os pais não podem esquecer que têm uma responsabilidade intrínseca de cuidar dos filhos, educá-los e orientá-los sobre o uso de entorpecentes.
Para fazer esse alerta, Marcio Rodrigues escreveu o livro A responsabilidade dos pais para com os filhos (Editora Carthago). E é exatamente esse o tema da palestra que o investigador fez na sexta-feira em Londrina, durante o Curso de capacitação de agentes multiplicadores na prevenção ao uso nocivo de drogas, ministrado por delegados e investigadores da Divisão de Prevenção e Educação (Dipe) do Departamento de Investigações sobre o Narcotráfico (Denarc), da Polícia Civil de São Paulo.
O que motiva o uso de drogas?
A vontade do agente. No meu entendimento, não há um motivo específico para a pessoa usar drogas porque pode ser por curiosidade ou por pressão do grupo, por exemplo. Mas todas essas ações secundárias partem de uma primária que é pura e simplesmente a vontade, visto que ninguém está obrigado pelo traficante a usar a droga. A pessoa pode ser aliciada ou convencida, mas essas ferramentas fazem apenas com que ela opte pelo uso.
Em qual idade predomina o uso?
Da manifestação da vontade ao uso pode haver uma variação entre diferentes idades. Já vi pessoas experimentando a maconha pela primeira vez com 30 anos; outras, no entanto, começando aos 10. Convívio, companhia, falta de orientação, ausência dos pais, ou pais presentes mas ausentes nas questões que envolvem a sociedade moderna, estão entre as inúmeras questões que podem diferir a idade de uso de droga.
A juventude chega primeiro, no que diz respeito ao acesso, e tem mais possibilidade de usar drogas pelos ambientes diversos que frequenta e meios sociais em que vive. Nesta fase, a facilidade é maior, o espírito de aventura também, a liberdade dentro de casa com os horários e as regras se afrouxaram, os pais trabalham fora e a convivência com eles passou a acontecer um pouco mais de longe. É uma liberdade assistida, e muitas vezes, comprometedora.
Qual é o papel da família na prevenção?
Os pais, os professores, os policiais, os comunicadores, os líderes comunitários, os religiosos, enfim, todos nós devemos dar suporte às pessoas saudáveis para que, no momento da oferta da droga, possam optar sozinhas pelo não uso ou comercialização. Hoje em dia, a política do faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço não funciona mais. O exemplo é fundamental. Pode ser que o pai e a mãe nunca falem com o filho sobre drogas e ele nunca se envolva, mas também acontece de os pais falarem sempre sobre isso e o filho se envolver. Não tem uma regra específica, porém, um bom exemplo dentro de casa e uma diretriz clara de procedimentos, respeito e afetividade podem fazer a diferença na rua quando alguém tentar aliciar o filho de alguma forma.
A partir de qual idade os pais devem começar a tratar o assunto?
Desde que o filho é recém-nascido. Não se deve pegar a criança no colo com hálito de cerveja, com cigarro na mão, e também deve-se evitar deixá-la em ambientes onde há pessoas fumando. Desde que o filho nasce, transmitimos a ele os ideais de vida e de educação, mas quando ele cresce um pouco, abrimos o portão de casa e o colocamos na escolinha e em outras atividades. A partir deste momento, em que se inicia o convívio social, a fiscalização deve ser redobrada e os percalços de defesa devem ser atuantes todos os dias. É necessário ter atitudes que mostrem que é importante ficar longe do mundo das drogas.
Como prevenir o uso de entorpecentes?
Informação desde criança é a palavra-chave. Sem dúvida, quem é informado desde pequeno terá menos probabilidade de usar entorpecente. Mas a informação deve ser assertiva, coerente, de acordo com a realidade que acontece fora de casa. Não se deve falar coisas fantasiosas, que maconheiro vai repetir de ano, que vai morrer, vai ter câncer, porque o filho pode ter um amigo que usa maconha há 10 anos, namora todo mundo, tem nota boa, ganhou carro zero do pai e não aconteceu nada disso.
Como as instituições de ensino podem ajudar a conscientizar os alunos sobre o tema?
Prioritariamente, o Estado precisa capacitar os professores para que repassem as informações com propriedade dentro da sala de aula. Mas se o professor, principalmente de escola pública, está desestimulado, descontente com o salário e descrente da educação, pouco poderá ser feito. Sem contar que os pais transferiram, inconscientemente, a responsabilidade de criação que é deles para a instituição de ensino. Os pais precisam entender que os filhos têm de sair de casa educados para serem instruídos na escola.
Qual é o papel do governo em relação às drogas?
O governo deve promover políticas de prevenção às drogas, com informações claras e diretas, formando com critério seus professores para discutir o assunto dentro da sala de aula. Também deve promover políticas públicas de repressão, em que a pena seja cumprida em sua integridade.
É possível conseguir reduzir o número de usuários?
Tem como diminuir porque muita gente fabrica a droga e muita gente distribui porque muita gente consome. Se começarmos a trabalhar com o possível público consumidor para que ele não consuma, a demanda vai ficando menor. Mas acredito que o tráfico de drogas nunca vai acabar.
Quais as consequências do consumo de droga para o usuário e para a família?
O usuário é fisicamente doente. Ele sofre de uma patologia e, por isso, não consegue assumir responsabilidades, não consegue progressão profissional e não desperta a atenção das pessoas. Ele tem dificuldade de convivência na vida, tanto no âmbito pessoal quanto no afetivo e no profissional. Para reparar esse dano, é preciso um tratamento longo. Depois disso, o usuário tem que reconsquistar a credibilidade e há um prejuízo porque cada dia que passou de maneira errada não volta mais. Por sua vez, a família sofre junto, sem ter nenhum tipo de prazer. O usuário usa a droga e tem um certo prazer, já a família tem 100% de sofrimento.


