Repercussões de acidentes na caça a bandidos
Reportagem de ontem deste Jornal rememora que casos recentes de tiroteios e perseguições policiais a bandidos, em Londrina, resultaram num homem morto, quando o veículo dos fugitivos atingiu o dele; na perda da criança de sua filha grávida, que estava no carro; em traumatismo dela, que ainda a mantém em cadeira de rodas, não se sabendo se irá se recuperar; numa família de classe média agora em dificuldade financeira, porque o titular da casa, que era carpinteiro, está morto; e dias depois num mototaxista ferido por uma bala perdida de uma troca de tiros entre policiais e assaltantes, numa rua movimentada.
No primeiro episódio a perseguição - em que houve também desfecho de tiros - não produziu resultados senão a tragédia, porque os ladrões (que haviam assaltado uma loja de celulares) não foram capturados. Nem que a operação houvesse alcançado êxito, as mortes e ferimentos que ocorreram seriam um preço alto demais. O que menos importou, no caso, foi o roubo e a fuga dos ladrões se isto iria gerar tanta perda pelo sacrifício de inocentes. Este espaço de opinião já alertou para o perigo dessas caçadas em ruas centrais e para o disparo de armas, em meio a outras pessoas, porque também terceiros são atingidos, com mortes e sequelas de difícil cura, como viuvez, orfandade, paralisia e dor.
Se os cidadãos pedem a ação da Polícia - e é indiscutível o benefício que o organismo policial proporciona, não só na atuação direta como na prevenção da criminalidade, embora a existência de alguns maus policiais - é preciso reexaminar táticas quando há risco claro e evidente a terceiras pessoas. Será preferível deixar o delinquente ir embora do que a perseguição resultar em atropelamentos e mortes, como no dramático caso que aconteceu em Londrina. Bandidos cometem assassinatos perversos e não poupam também policiais, mas eles são a parte má, os fora-da-lei, enquanto a polícia tem formação de academia e sabe dos riscos que uma perseguição em ruas centrais e o uso de armas causam.
É preciso mudar métodos porque os fatos têm demonstrado que bandidos não param de delinquir, e cedo ou tarde acabarão presos. Eles têm nos policiais seus maiores inimigos, e isto cria uma rivalidade entre ambos. Os agentes policiais conhecem boa parte da bandidagem, por denúncias e indicações e por haver prendido muitos deles - que acabam eventualmente em liberdade por fugas (planejadas por eles ou facilitadas) ou decisões judiciais.
Nessas perseguições o bandido não se preocupa com nada, mas a polícia tem uma responsabildiade muito grande. A questão é delicada, porque a sociedade cobra e os organismos de segurança desejam atendê-la - até porque esta é a sua função - mas os exemplos do enorme risco a vidas inocentes remete para a necessidade de um reexame e estratégias. Neste processo a polícia é a parte mais sensata, por isso dela mais se exige. E essa exigência também significa evitar ações de alto risco, para a própria polícia e para as pessoas que estão na rota. A instituição policial deve fazer distinção entre os cidadãos afoitos que dão apoio a essas ações e querem a detenção dos bandidos a qualquer custo, sem medir consequências, e aqueles mais prudentes, que formam a maioria da sociedade.





