Renunciar para tentar o retorno
Não há nenhum ato patriótico do senador Joaquim Roriz ao renunciar ao mandato, mas antes o oportunismo de não ser processado e sob risco de cassação. Porque a renúncia é o espúrio remédio legal para a tentativa de retorno ao poder pelo voto eletivo. Nesse embate, foi providencial o PSOL, que teve sua representação contra o parlamentar aceita pela mesa diretora do Senado, forçando o abandono do cargo pelo senador antes que o Conselho de Ética o notificasse. Roriz ainda tentou levar seu suplente (Gim Argello, PTB-DF) a tomar idêntica medida, sem sucesso. Também Argello é apontado no mesmo escândalo de Roriz.
No Brasil, muitos políticos entram na vida pública pelo portal do voto popular, e em igual número eles saem pelo corredor da execração em face dos desmandos que cometem. Roriz foi capturado pela Polícia Civil em escuta telefônica, conversando com o presidente do Banco de Brasília sobre a partilha de um cheque de R$ 2,2 milhões, emitido pelo presidente da companhia aérea Gol, Nenê Constantino. Uma história de pontos e contrapontos que ainda não chegou a ser suficientemente explicada. O acusado naturalmente se defende e se proclama inocente.
Esperar que políticos denunciados admitam suas falhas é utopia, porque isto só acontece em países onde enganar o povo é um delito grave. Caso conhecido do Japão e de algumas outras repúblicas. Então, assiste-se a essas fugas estratégicas, sempre com o olhar desses espertalhões voltado para o retorno ao poder e, naturalmente, dar continuidade aos desmandos. O caso Roriz não foi o único e, pela cultura imperante e já sedimentada, não será o último. Escândalos vêm explodindo um atrás do outro, a ponto de já deixarem de ser notícia - porque a novidadade mesmo, na malfadada história política brasileira, é um parlamentar ou um governante passarem pela vida pública sem uma mácula sequer. Tais políticos existiram sim, e muitos deles ainda são exemplos e baluartes de moralidade.
O que desencanta no caso Roriz é que sai um suspeito e entra outro, porque o 1º suplente Gim Argello já entra se defendendo, pois o titular renunciante o denuncia como principal responsável pelo ''imbróglio'' do famoso cheque. Eventualmente ele também tenha de ser investigado. Já o 2º suplente (Marcos de Almeida Castro) é famoso lobista em Brasília, portanto carregando a marca de negociador político. Os cidadãos brasileiros conscientes - aqueles que se recusam a reconduzir corruptos ao poder á- assistem às reprises sucessivas desse vergonhoso espetáculo e já estão enojados.





