Verdade que, tanto nos EUA como nos casos do Brasil, ao tomar a decisão da renúncia pesava sobre o governador do Estado de Nova York - o democrata Eliot Spitzer - a ameaça de cassação, mas antes de agarrar-se a argumentos de defesa e de bater no peito proclamando-se vítima, ele prontamente se afastou. ''Não posso permitir que meus fracassos privados atrapalhem o trabalho público'', ele disse, depois que foi surpreendido em escândalo sexual. Sua carreira política está encerrada, no entender do consenso norte-americano, significando que, dificilmente, ele busque voltar à política. Quanto a esse aspecto, tudo indica que a renúncia não foi um oportunismo político.
Embora o caso ainda possa ter desdobramentos na Justiça, a renúncia contribui, no mínimo, para evitar mais volume na sobrecarga judicial e no próprio meio governamental, e dá menos canseira ao povo, poupando-o de indignações. Suspeito em uma investigação federal por envolver-se com um clube de prostitutas, ele admitiu seu erro e pediu desculpas ao povo. Não ficou agarrado ao poder, aguardando decisão de uma eventual comissão de cassação, mas certamente levou em conta que 70% dos nova-iorquinos já não o queriam no cargo, conforme pesquisa. A decisão do povo tem forte peso. No Brasil, ante a primeira acusação a um homem público, a população deveria ser consultada e o denunciado de pronto afastar-se enquanto sob suspeição. Seria um gesto de respeito ao eleitorado.
Spitzer não tinha mácula quanto à sua retidão administrativa, mas a nação norte-americana não é tolerante com escândalos sexuais. Prevalece o aspecto da moralidade, e por isso os veículos de comunicação, naquele país, dão grande cobertura a esses episódios. Recorde-se que Bill Clinton quase perdeu o cargo por causa da estagiária amante Mônica Lewinski - e no caso a iminência de cassação ocorreu nem por ela existir (embora tenha sido o pivô de tudo) mas porque de início o governante mentiu ao povo sobre suas relações com ela. E a mentira é outro delito grave na democrática nação do Norte.
E por triste ironia, Hilary Clinton, mulher de Bill - que foi a grande sofredora na época - é agora pré-candidata democrata à presidência da República e sofre novo desgaste com o episódio envolvendo seu companheiro de partido, e por uma questão da mesma natureza. Além de o fato macular mais uma vez os democratas, Spitzer, como superdelegado, já não poderá ajudar a companheira, em quem optara na disputa dela com Barack Obama. Abalos na campanha eleitoral americana. Mas são um exemplo para o mundo a imediata renúncia do governante, a admissão de culpa e o pedido de desculpas ao povo. Como se escreveu neste espaço recentemente, caem os homens para salvar-se as instituições.

mockup