É inegável o mal-estar que invade o atual período histórico. Vive-se um tempo sem horizontes, as grandes narrativas que se empenhavam em desenhar novos constructos sociais capazes de nos impulsionar para níveis superiores de civilização estão mortas ou na UTI. Resta a certeza que qualquer novo projeto para ter legitimidade e consistência deve passar pelo crivo popular, num processo de radicalização da democracia, em que é mais razoável errarmos juntos, do que acertarmos sozinhos.

Precisamos de educação política para mobilizar as comunidades em prol do bem comum e governos que se abram à participação direta da população, com plebiscitos, referendos, consultas populares e todos os meios de interação e deliberação da sociedade, algo facilitado pelas novas tecnologias de informação. Mas a democracia não pode se restringir à esfera política governamental tem que avançar para a dimensão econômica e social, sob o risco da primeira ser desmontada a serviço de interesses mercantis, como sempre ocorreu no Brasil. O crescimento econômico não pode ser entendido como um fim em si mesmo, mas um meio para dar vida a sociedades mais justas e humanizadas. A concentração de renda e de poder atingem níveis alarmantes em todo o mundo, o que ameaça a soberania popular que se fundamenta no equilíbrio de forças.

A história nos ensinou que nem a ausência de mercado, nem o fundamentalismo de mercado são respostas à altura para as necessidades e desejos humanos. As economias modernas terão de saber combinar público e privado de vários modos e em diferentes graus, não se pode querer limitar a realidade a polarizações apressadas e excludentes que induzem a absolutismos reducionistas: público ou privado, indivíduo ou sociedade, liberdade ou igualdade, pois somos seres complexos que não podem se reduzir a partes isoladas, não é separar, é conciliar.

Contudo, o grande problema da contemporaneidade está no domínio desproporcional da dimensão individualista e de autointeresse que se propõe a neutralizar tudo o que é coletivo e serve ao bem comum. O Estado sofre pressão para reduzir seus mecanismos de intervenção, para que as responsabilidades sociais sejam transferidas para a esfera individual, num enfraquecimento paulatino dos direitos de cidadania. Assiste-se à privatização da miséria em que cada cidadão é forçado ou seduzido a encontrar soluções individuais para problemas socialmente produzidos.

Em vez da obsessão por maximizar lucros para fins privados e participar de rankings que classificam os indivíduos pelo acumulo de riqueza, algo patológico e infantilizado, precisamos de iniciativas que objetivem a maximização do bem-estar social e sejam medidas pela capacidade de inclusão e impacto para a coletividade. Não se trata apenas de elevação da renda e do aumento do consumo dos indivíduos, mas ampliação das oportunidades, aquilo que Amartya Sen chama de ampliar as liberdades – entendidas como capacidades - para que cada um tenha o direito de fazer escolhas e não precise se submeter ao domínio dos mais fortes por falta de alternativas.

A democratização da economia inclui a democratização das grandes empresas, com limites à concentração acionária, a derrubada de monopólios, oligopólios e cartéis, o estímulo ao desenvolvimento de cooperativas, empreendimentos de economia solidária e a proliferação de pequenas e médias empresas locais, numa lógica de comércio equitativo, includente e sustentável. Pressupõe-se o desenvolvimento de microcrédito, poupança solidária para financiar projetos de proximidade que criam empregos e dinamizam as comunidades locais. Vale a máxima: "Toda a empresa deveria se democratizar e socializar à medida em que cresce e se desenvolve".

LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é professor de socioeconomia na UEL

■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ces­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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