Renovação da Esquerda
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 20 de novembro de 1996
Fernando José Dias da Silva 
Para quem não acreditava, olha ela aí novamente. É a esquerda renovada, que fez lipoaspiração, deu um trato no visual e reaparece com ar jovial, bonitona. Agora, a nova esquerda aparece com sotaque gaúcho. É uma prenda sem nenhum baixo astral. Nem liga mais para a queda do Muro de Berlim. Tem propostas novas. E a população de Porto Alegre adora. A nova esquerda gaúcha não é modesta, promete vôos mais altos. Por isso, as patricinhas neoliberais que se cuidem.
Essa esquerda recauchutada é resultado da terceira vitória consecutiva do PT para a Prefeitura de Porto Alegre, que emplacou Raul Pont já no primeiro turno, sem dar nenhuma chance para os adversários. E seus maiores atrativos são a forma como o partido administrou a cidade, principalmente, com o chamado Orçamento Participativo, no qual a população dá palpite na priorização de investimentos e no direcionamento dos gastos.
Foi um sucesso. No comando desta guinada estão o prefeito anterior, Olívio Dutra, e o atual, Tarso Genro, que é tido como o arquiteto intelectual desta nova forma de pensar do PT. Agora, eles acham que dá para abocanhar o governo do Rio Grande do Sul e depois, quem sabe, a candidatura do partido à Presidência da República.
Para Tarso Genro é preciso também ousadia de conceber a existência de um espaço público de caráter não-estatal. Espaço capaz de ser estruturado entre o Estado e a sociedade para potencializar formas capazes de combinar a democracia direta com a estabilidade de representação política. Uma coisa tão forte que implica novas relações de poder.
O prefeito de Porto Alegre acha que a esquerda só pode ampliar a sua penetração na sociedade combatendo o conforto da cultura da desigualdade e a aceitação objetivista de naturalização das relações sociais. A naturalização das relações é aí entendida como a lei do mais forte.
Mas não imagine que esse pessoal pode ser considerado light. Eles tiveram origem em grupos da esquerda radical, mas, agora, consideram que as vitórias em Porto Alegre mostram o avanço daqueles que propõem a reformulação da esquerda, dos que desejam responder ao neoliberalismo de maneira moderna e convincente, sem se afastar dos compromissos com os trabalhadores, das camadas médias, dos excluídos que lutam por uma sociedade com menos desigualdades.
Outro aspecto importante apontado por Tarso Genro é que o eleitorado perdeu o temor reverencial de que o PT iria mudar sua vida cotidiana para pior. Talvez, até a própria eleição ter-se tornado fato corriqueiro tenha contribuído para isto.
Mas o melhor é quando Tarso Genro explica que a esquerda precisa mudar sua perspectiva histórica: a certeza de que a crise do capitalismo era uma espécie de motor para fazer funcionar o socialismo. Agora, segundo Tarso Genro, a perspectiva não é para o socialismo, mas para a afirmação das barbáries.
Por isso, hoje é preciso buscar um acordo sobre os fundamentos morais da igualdade capazes de se tornarem universais. E que a igualdade só pode legitimar-se pela democracia, que exige cena pública e liberdade, incompatíveis com qualquer regime de força, como nas antigas democracias populares.
- Fernando José Dias da Silva é jornalista em São Paulo.


