Nos últimos dias o investidor foi ‘‘sacudido’’ por perdas de rentabilidade ou de capital, nas aplicações de fundos de renda fixa, tanto os com títulos pré-fixados, como os pós-fixados, tanto os com títulos públicos, como os com títulos privados. O que houve? A ‘‘culpa’’ é do governo? É dos administradores? As perdas poderiam ser evitadas? Como? Por que?
É importante saber que acontecia e o que o Banco Central queria. Ao comprar os títulos, privados ou públicos para fazerem parte da carteira, o administrador ia apropriando a rentabilidade do título dia a dia, independentemente da cotação deste título no mercado secundário. Isto quer dizer que mesmo que acontecesse alguma coisa que fizesse os juros subirem ou caírem isto não era ‘‘repassado’’ para o título. Esta diferença pode ser maior à medida que o título é mais longo.
O Banco Central já vinha discutindo com os administradores para que fizessem a ‘‘marcação’’ dos títulos conforme a cotação destes no mercado secundário. Isto estava pronto para entrar em vigor no mês de setembro. No entanto alguns fatos, ainda não esclarecidos totalmente, fizeram com que o Banco Central antecipasse de surpresa as medidas que mudam a contabilização dos títulos.
Com isso cada fundo teve que ‘‘marcar’’ seus títulos conforme a cotação no mercado, fazendo com que ‘‘distorções’’ e ‘‘erros’’ aparecessem. O momento que o Banco Central escolheu para fazer esta mudança pode ser considerado inoportuno, no entanto entre agora, e setembro faltando 15 dias para as eleições, acho que agora foi ‘‘menos ruim’’.
Este fato desencadeou uma realimentação do risco-Brasil que afetou o mercado de forma direta, com alta no dólar e sobra de dinheiro no mercado, devido ao resgate das cotas dos fundos e aplicação em CDBs. Como a atividade produtiva está em compasso de espera, há excesso de recursos para o Banco Central recolher.
Agora o que fica de todo este episódio, é que a partir de agora o investidor deve encarar o fundo de investimento em renda fixa, como sendo também um investimento de risco, em menores proporções que os de renda variável, mas não mais o ‘‘porto seguro’’ absoluto.
Outro ponto importante é que as habilidades dos administradores vão aparecer mais do que antes, e os arrojados serão ‘‘realmente’’ recompensados também na renda fixa.
O pequeno investidor passa a ter agora como os investimentos de menor risco na renda fixa, a poupança, o título público (através do Tesouro Direto) e o CDB de bancos privados, pela ordem crescente.
Assim a composição de um portfolio agora precisa especificar o risco da renda fixa que o investidor quer correr, e assim contrabalançar com a renda variável que já tem o seu risco embutido.
MAURO GIORGI é analista de investimentos

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