‘‘E no entanto é preciso cantar’’... dizia a ‘‘Marcha de Quarta-Feira de Cinzas’’ de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes. ‘‘Mais que nunca é preciso cantar e acordar a cidade.’ É preciso. O ano começou cedo e 1999 não manteve a tradição de se iniciar, pra valer, depois do Carnaval. Isso prova que o Brasil, como qualquer país do mundo, não tem mais controle sobre seus caprichos culturais.
Por três dias, a crise tirou um cochilo, mas seus arquitetos e ardis continuaram. No ventre da folia máquinas calcularam, reuniões on line foram feitas, documentos viajaram e-mails montando estratégias. Também os que tentam controlar a crise devem ter aproveitado a pausa na pressão diária para encontrar alguma alternativa genial - e haja gênio e originalidade - para conciliar o jogo das novas regras do soft-colonialismo globalizado, manter um mínimo de dignidade nacional e ainda elevar o padrão de vida, até a condição humana, de milhões de miseráveis no País. Qual Joãosinho Trinta poderia nos resgatar?
Agora o País volta ao flutuar do câmbio, aos pseudo-salvadores da pátria, aos jogos de astúcias, às ‘‘detalhadas profecias sobre o nada’’, às cartas de intenções e às análises que não se sustentam cinco minutos, tempo em que novos dados chegam velozes e alteram todo o quadro. Hoje voltamos à trama da realidade que alimenta nosso drama.
O Carnaval pode ter servido para considerar o quanto as energias criadoras do povo brasileiro seriam úteis na hora de renascer. Refletir a estupenda capacidade de superação do homem comum e sua habilidade em manter acesa a esperança. Dizer que o brasileiro reage de modo positivo porque o sol exuberante calcina qualquer depressão já não define mais. O País acumula um razoável histórico de tragédias e frustrações. Mas está de pé e ainda sorri. E festeja.
Com que direito? - perguntam os senhores da nova colônia. Como gastam tanto em uma festa quando estão à beira do abismo? Como conseguem sair da realidade assim? Essa é a questão desta quarta-feira para renascer das cinzas. A cinza contém sal. Ela pode ser o tempero para uma virada. Não a virada burocrata e narcisista dos que se julgam os donos do destino nacional. Mas a virada que considere muito mais cabeças, corações e sentimentos.
As cinzas dos ossos, por exemplo, contêm o fosfato tribásico de cálcio, que é o elemento fundamental para atingir a textura mais transparente dos cristais. Sabedoria das cinzas, resto, resultado de um processo que chegou ao limite do esgotamento, combustão, lixo permitindo a beleza limpa de uma jóia.
Quando se acusa um povo inteiro de fugir da realidade, a pergunta é: de qual realidade? Será a realidade desse mecanismo monstruoso e abstrato, imponderável e cheio de atalhos chamado mercado de capitais? Será a realidade única essa maneira de enfocar o progresso com um modelo totalmente apoiado em consumo e destruição de matérias-primas não renováveis? Será a realidade, suprema, viver desesperadamente infeliz em um sistema alimentado por cobiça e submissão?
Destas cinzas renascer para algo que seja mais verdadeiro, útil e prazeroso para muito mais gente. Escapar da viciada realidade imposta por uns poucos auto-iluminados em sua alienada visão exclusiva de ‘‘realidade’’. Eles montam a crise, administram a crise e regulam sua cruel intensidade. Nós, renascemos!
- TT CATALÃO é jornalista em Brasília

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