Renan Calheiros Década amarga Às vésperas do Carnaval, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) divulgou os números do desemprego, do crescimento do mercado informal de trabalho e da variação da renda do trabalhador brasileiro ao longo dos últimos 10 anos. Lamentavelmente, os resultados apurados em seis capitais com altos índices de industrialização não foram nada alentadores. De acordo com os dados, o desemprego no País alcançou seu segundo pior índice mensal: 7,6% da população economicamente ativa estava sem trabalho no mês de janeiro. Este percentual em janeiro de 1999, era de 7,7%. Outro índice semelhante só foi registrado em janeiro de 1984, quando 7,5% dos trabalhadores procuravam uma vaga no mercado de trabalho. O patamar de desemprego, em torno de 7%, vem se mantendo estável desde 1998, quando ele atingiu 7,3%. É um percentual, sem dúvida, elevado mesmo para países altamente desenvolvidos que dispõem de políticas econômicas eficientes contra o desemprego. No Brasil, em virtude de nossa realidade, torna-se um índice inaceitável. A metodologia do IBGE ameniza os números. No meu Estado, Alagoas, o índice de desemprego já atingiu 34,77%. Um outro dado que chama a atenção comprova o crescimento do mercado informal, ou seja, emprego sem assinatura da carteira de trabalho e, portanto, sem os benefícios previdenciários e sociais, como Fundo de Garantia, aposentadoria etc. O mercado informal aumentou em 62% nesta década, o que implica também em menos impostos e contribuições sociais. Segundo os dados da pesquisa do IBGE, nos últimos 10 anos, o trabalhador brasileiro assistiu sua renda média ser reduzida em exatos 8,09%, ou seja, a inflação cresceu mais do que os rendimentos dos trabalhadores. Resultado de uma perversa combinação de desemprego, que achata os salários, e repiques inflacionários. O Plano Real não pode se converter em um telhado virtual, com janelas exclusivas e particulares de otimismo. A eficácia da política econômica precisa, urgentemente, ser compartilhada e sentida pela sociedade. Não faz sentido um plano pelo plano. Acima de tudo está o cidadão. O Estado não pode viver para si próprio. Reprisar o mérito do controle inflacionário é um exercício inútil de arqueologia. É preciso socializar o real. Nós vemos e compreendemos o Plano Real, mas é necessário mais do que isso. A população, além de vê-lo nitidamente, precisa tocá-lo. Para isso o real está precisando de um passaporte brasileiro a fim de ingressar na vida do País. Ele será bem-vindo. E isto só pode ser feito através da geração de postos de trabalho e recuperação dos salários, não só o mínimo e o máximo. Precisamos incluir na discussão os servidores públicos, há cinco anos sem qualquer tipo de reajuste. - RENAN CALHEIROS é senador pelo PMDB-AL e ex-ministro da Justiça