Quem quando criança nunca chupou comprimidos de AAS (Ácido Acetil Salicílico) como bala? Cor-de-rosa e com cheiro adocicado, facilitavam a vida das mães na hora da medicação, mas também fazia com que as crianças quisessem comer o remédio como se fosse um doce.

A farmacêutica Fabiane Yuri Yamacita, que ministrou recentemente um curso sobre o uso indiscriminado de analgésicos e antiinflamatórios, falou à FOLHA sobre os riscos de exagerar na dose na hora de se medicar.

O brasileiro consome mais medicamentos desnecessários do que em outros países?
Sim, porque em vários países a política para venda de medicamentos é mais rigorosa, fazem a maior exigência para que seja com prescrição médica. No Brasil não é muito fiscalizado, então acaba sendo vendido muito medicamento sem prescrição.

Qual a diferença dos analgésicos para os antiinflamatórios?
Na verdade, a maioria dos analgésicos também têm ação antiinflamatória. Só que dentro desses analgésicos e antiinflamatórios existem as diferenças de analgésicos opióides, analgésicos não esteróides e analgésicos esteróides. Os opióides agem no sistema nervoso central, são derivados da morfina, por exemplo. Os analgésicos AINES, não esteróides, são os comuns, como a dipirona, diclofenaco e os esteroidais são os corticóides, a betametasona, dexametasona, predinisona.

Quais os efeitos negativos do uso indiscriminado desses medicamentos?
O uso indiscriminado, por tempo longo e até uma dose acima do permitido, traz muitos riscos à saúde, principalmente problemas gastrointestinais, do trato digestivo, como gastrite, úlceras. Pode trazer problemas também na coagulação sanguínea, causando discrasia e agrulanocitose, que é uma diminuição dos glóbulos brancos, tornando a pessoa suscetível à infecções.

O uso frequente de um mesmo medicamento pode fazer com que ele perca o efeito?
Pode causar uma certa tolerância e precisando de analgésicos cada vez mais potentes para resolver o problema de dor.

Há medicamentos que as pessoas acham ''inofensivos'' e em combinação com outros podem causar malefícios?
A maior parte das interações que podem ocorrer com os AINES, os analgésicos antiinflamatórios, é para pacientes com doenças crônicas como hipertensão. Pode haver interação de um medicamento anti-hipertensivo com analgésico e diminuir a eficácia do tratamento para uso crônico, que é do hipertenso.

Tem alguma outra combinação comum?
O maior problema é você usar um analgésico e associar um anti-gripal que tem o mesmo princípio ativo e ocorrer uma superdosagem, que pode potencializar e favorecer o risco das reações adversas.

Qual a solução para diminuir esse uso indiscriminado?
Uma conscientização maior para a população entender que o medicamento, por mais que não seja tarjado, não seja vendido necessariamente sob prescrição. É preciso todo cuidado, todo um acompanhamento, não deve ser feito o uso prolongado desse medicamento sem acompanhamento médico. Tem sempre que ser avaliada a parte de riscos e benefícios que o medicamento pode estar causando para essa pessoa?

Em parte não é culpa dos farmacêuticos ou balconistas, porque quando se chega na farmácia e se diz que está com uma gripe eles vêm com uma coleção de remédios?
Seria preciso uma orientação, um critério melhor para fazer essa dispensação de medicamentos.

Os farmacêuticos não estão preparados ou agem de má fé por causa da venda?
Eu acho que devia ter uma conscientização maior da classe para uma orientação mais eficaz, para que eles prestem uma orientação ao paciente para não fazer esse uso indiscriminado.

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