Remédio amargo é impopular
Joel Samways Neto
Como faz falta ao Brasil uma escola mais decente, mais honesta, para o próprio Brasil. Tivéssemos o cuidado com a história, com a memória com os feitos heróicos, com as renúncias pessoais heróicas, dos brasileiros de ontem e de hoje, certamente não estaríamos vivendo agora tantas contradições.
Será que as escolas estão, por exemplo, estudando a vida e a obra do ilustre compatriota Osvaldo Cruz? O médico sanitarista, que viveu no final do século passado e no início deste, fundador da medicina experimental em nossa País, é um desses heróis de ontem que não podem ser esquecidos hoje. Em 1902, quando começou uma terrível epidemia de febre amarela na capital federal, Rio de Janeiro, Cruz era diretor do Instituto Soroterápico. Um ano depois, já no cargo de diretor-geral da Saúde Pública, iniciou uma rigorosíssima campanha contra a febre, isolando doentes, determinando a obrigatoriedade da vacinação e uma ousada ação entre os focos de mosquitos. A forma severa com que dispôs a acabar com a doença provocou forte reação política. Cruz se tornou imensamente impopular. A imprensa caiu de pau em cima dele, os positivistas tentaram ridicularizá-lo. A situação chegou mesmo a dar ensejo a uma rebelião na Escola Militar, com apoio da população, num movimento tal que por pouco não termina depondo o então governador Rodrigues Alves. Foi preciso que o comandante da guarnição federal, general Hermes da Fonseca interviesse para abafar o rebuliço. A campanha de Osvaldo Cruz prosseguiu. Ainda em 1903, o número de mortes provocadas pela doença caiu para 584. No ano da rebelião. 1904, subiu para 589, mas em 1906 chega a 39, e, 1907, houve apenas 4 caso fatais. Em 1908 nenhum foi registrado. Cruz erradicou a febre amarela. Também erradicou a peste bubônica. Graças a ele, o Brasil recebeu o primeiro prêmio, entre 123 participantes, no XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia, em 1907.
Osvaldo Cruz se tornou vulto emérito, figurando na galeria dos heróis da Pátria. No entanto, quando se dispusera a ministrar um remédio amargo ao povo carioca, quiseram linchá-lo, exatamente aqueles que, mais tarde, estariam vivos por causa da intransigência do cientista.
Há muita semelhança entre esse episódio de nossa história e o momento político nacional contemporâneo. Quando ainda era candidato à presidência da República, Fernando Henrique Cardoso compareceu a um encontro com funcionários do Banco do Brasil, na Anabb, e bateu duro na mentalidade que permeava os chamados fundos de pensão. Criticou aquele absurdo que o regime dos fundos estabelecia, permitindo que as empresas estatais contribuíssem com a reserva a uma proporção de 3 para 1, para 5 para 1, chegando até a 7 para 1 (para cada real do trabalhador, a empresa entrava com 3, 4, 5 reais). Isso fazia com que os fundos se fortalecessem às custas do dinheiro público, e, daí, passassem a conceder privilégios aos funcionários do setor. Fernando Henrique, à época, desagradou o corporativismo do Banco do Brasil, prometendo um remédio amargo para aquela e outras doenças. Começava a combater a epidemia. (Atualmente, o regime está modificado, está mais justo, apesar de os funcionários antigos gozarem do ‘‘direito adquirido’’.)
Fernando Henrique prometeu muitos outros remédios amargos, principalmente com a anunciada Reforma do Estado (reforma administrativa, financeira, fiscal), que o eleitorado escolheu, democraticamente. Esse remédio amargo representa a possibilidade de o País finalmente construir um Estado auto-sustentável, não deficitário, não atrasado.
Obviamente, o presidente Fernando Henrique está colidindo de frente com interesses corporativos muitos fortes, e desagradando políticos nacionalisteiros, porta-vozes do atraso. Ele tem aplicado, ou tentando aplicar, remédios amargos, porém indispensáveis e, conforme ele próprio sempre reconhece, ao preço de sua popularidade. Se fosse populista, estaria concedendo facilidades de curto prazo ao povo, sendo patriarcal, assistencialista, promovendo paliativos para desfrutar de momentos fugazes de euforia popular. Pode-se dizer que FHC está tentando vacinar o País contra a obsolescência.
Se nós, brasileiros, repetiremos, ou não, o equívoco cometido contra Osvaldo Cruz no primeiro momento isso veremos no resultado das próximas eleições. Veremos se o povo ainda gosta de se iludir com doces propostas imediatistas ou se está disposto a enfrentar as dificuldades iniciais que toda e qualquer mudança estrutural acarreta.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná.

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