Relógio de camelô
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 27 de outubro de 1997
José Nêumanne 
Uma das maiores pragas da política brasileira em todos os tempos é o parente competente. Na carta que escreveu a El Rey Dom Manuel, o Venturoso, seu fiel súdito Pero Vaz de Caminha, além de dar as boas novas de terra virgem e vasta, pediu uma boquinha para um genro, que não era apenas o marido de sua filha, mas também um excelente servidor público em potencial. O costume de empregar ou pedir emprego para parentes competentes passou, então, a assolar a administração pública na Terra de Santa Cruz, antes de ser derrubado o primeiro pau-brasil. O nepotismo chegou aqui antes da devastação ambiental.
Há cinco séculos, vem frequentando os corredores dos palácios e as escrivaninhas das repartições públicas, sejam quais forem seus ocupantes, monarquistas ou republicanos, capitalistas ou comunistas, católicos ou espíritas, fascistas ou socialistas. A ex-freira Irma Passoni cumpriu seu mandato de parlamentar petista com o marido à sombra e nunca se negou a usar a mesma explicação de seus adversários para justificar a preferência: diferentemente dos outros, seu parente muito próximo dispunha de qualificações para ocupar a assessoria que ocupava.
A justificativa - cinicamente usada pelos juízes da Justiça de Trabalho na Paraíba ou pelos ex-governadores do Paraná Álvaro Dias e Roberto Requião - é a da notória especialização. Normalmente, vem acompanhada de argumentos que recheiam o bolo, mas não lhe dão a mínima consistência: pela proximidade, o ente querido é mais confiável do que o desconhecido e parentesco também não pode ser usado como instrumento de discriminação. Não vou discriminá-lo só porque é meu filho, repetem todos, desde 1500, sem pintar sequer rubor em suas faces.
O normal é que cobranças sejam feitas, explicações sejam dadas, mas nada de realmente concreto ocorra. O governador de Goiás, Maguito Vilela (PMDB), chegou a patrocinar uma lei, que limita, mas legitima, a contratação da parentada por gestores da coisa pública. Problemas - como o do ex-governador (hoje deputado) de São Paulo Franco Montoro (PSDB), que teve de demitir seu filho Eugênio da poderosa Secretaria de Estado, para livrar a administração de denúncias consistentes de malversação do Erário - são raridades.
A entrada do PSDB nessa história é uma prova de que a estrutura do nepotismo na gestão pública brasileira é muito mais forte do que supõem aqueles que a combatem. O partido do presidente Fernando Henrique é uma dissidência do velho PMDB de guerra e pretendia se distinguir principalmente pela crítica do personalismo, que torna a democracia brasileira mais frágil, e pela luta política em favor do fortalecimento das instituições. No entanto, a chegada dos tucanos ao poder, mais rapidamente até do que eles próprios poderiam imaginar, terminou por inoculá-los do mesmo vírus ancestral do nepotismo colonial.
O governador do Estado do Rio de Janeiro, Marcello Alencar, acaba de nomear o filho Marco Antônio para o Tribunal de Contas do Estado. Sabe-se que as cortes falsas do gênero para nada servem, a não ser de cabides de emprego (bem remunerados e vitalícios) para afilhados e apaniguados de figurões da política. Assim, o governador garante a sobrevivência do rebento, recorrendo a dois vícios que seu partido diz combater: o nepotismo descarado e a inutilidade dos TCEs. Além disso, estabelece a igualdade no lar - o outro filho, Marco Aurélio, como secretário da Fazenda, tem as chaves do cofre do Erário estadual. No clã Alencar é assim: um filho gasta e o irmão aprova as contas do pai.
Enquanto isso, no Pará, os tucanos são vítimas do amor paterno de um aliado pefelista. Graças à influência do velho Hélio Gueiros, o filho do mesmo nome entrou na chapa de Almir Gabriel. Com o governador no hospital entre a vida e a morte, o vivíssimo interino resolveu soltar a franga. Demitiu secretários, suspendeu incentivos fiscais concedidos há 30 anos e usou dinheiro do banco do Estado já aplicado para pagar metade do 13º salário do funcionalismo. O pai amantíssimo, que já foi governador do Estado e prefeito do Capital, veio a público garantir que Sua Excelência, o Júnior, está certo, sim, senhores. O Helinho, avalizou ele, arrotando afeto, está fazendo e acontecendo.
O que faz e acontece é o pior tipo de parente competente que existe. Os que não fazem e não acontecem, limitando-se a mamar nas tetas generosas do Estado, são menos nocivos ao bem comum. De qualquer forma, Deus nos livre e guarde dos dois tipos. Pois, enquanto eles sobreviverem, nossa democracia será falsa como relógio de camelô.


