Religiões e salvação
Nem Moisés e muito menos Jesus de Nazaré quiseram fundar qualquer religião!
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
Nem Moisés e muito menos Jesus de Nazaré quiseram fundar qualquer religião!
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos 
Sai a todos familiar, a expressão “religião não salva ninguém”? Quando a abordamos como máxima indiscutível, é óbvio, que não encontramos mais do que meia verdade! Afinal, isso implicaria em excluir pessoas do processo salvífico, que se constituem como tal, dentro de determinada religião. Não seria honesto e decretaria a falsidade parcial do seu conteúdo, por mais universal que nos pareça. Outrossim, serviria essa expressão para, diluindo a importância da religião, atrair incautos a mudarem de confissão religiosa com mais facilidade, ou a simplesmente abominarem o fator religioso, que em última análise, os constituiu.
Posto isto, invistamos no lado certeiro da expressão. Posso até dar crédito, aos que afirmam serem as principais religiões fundadas por seus mentores primeiros. Nomeadamente as asiáticas. Mas, quando se trata do cristianismo ou judaísmo, isso não procede. Nem Moisés e muito menos Jesus de Nazaré quiseram fundar qualquer religião! No que tange à primeira (judaísmo), ela se elaborou como tal, no pós exílio da Babilónia até cerca de dois séculos antes de Cristo. A “religião” que Jesus encontrou e nela nasceu e cresceu, era organizada em torno do templo e sinagogas, com uma complexa hierarquia e conjunto de grupos, a maioria dos quais se opôs imediatamente ao jeito do Nazareno vivenciar essas densas e petrificadas normas religiosas. Se Moisés não a fundou, no tempo de Cristo era uma das principais religiões do mundo!
Quanto ao cristianismo tal como o conhecemos hoje, foi elaborado conceitualmente pelo autor das cartas paulinas e pelos escritos do Novo Testamento em geral. Seguiram-se depois, os vários Concílios, Reformas e Contra Reformas, até aos dias de hoje. A dinâmica desta religião majoritária no Ocidente, tem sido a busca incansável das “logia Jesu”, ou seja, resgatar o pensamento do Mestre (que pode estar explícito ou não, nos livros) e adaptá-lo a todos os tempos e lugares. Parece uma equação fácil, mas é hercúlea!
A história das Igrejas cristãs nos mostra que infelizmente, o peso da Intuição religiosa foi deveras maior do que essas Palavras do Mestre! E que, por infelicidade, a expressão inicial do artigo corresponde também à verdade! Sim! Religião não somente não salva, como se prestaria à condenação! A absolutização da religião como ilusória segurança soteriológica tem sido um grande problema ao longo dos séculos e a causa de fanatismos que a muitos levaram à fogueira! Quando se vai ao extremo de identificar determinada religião (ou Igreja) com o conteúdo essencial da mensagem cristã, não somente se rouba o protagonismo da mesma, como se excluem automaticamente os que a esse grupo não pertencem. Somamos a isso, todos os abusos atuais tipificados pelo Direito. Bem vindos ao mundo da religião que oprime e mata! Qualquer uma delas, que não tire as sandálias perante o solo sagrado que é a dignidade do ser humano! (acabei de ler que um robô recebeu ordens sacras no budismo)!
No entanto, a religião, que Cristo não fundou, mas que se formou a partir do seu pensamento, tem sido uma oportunidade privilegiada de salvação. Não me refiro somente aos inúmeros homens e mulheres inspiradores ao longo dos séculos, mas aos anônimos que incutiram a este mundo um odor do Evangelho e o tornaram melhor. O Apocalipse (7,9) chama-os de “grande multidão vestida de branco”! Não só atingiram a plenitude como seres humanos, que a mensagem cristã faculta, como induziram muitos a fazê-lo. Bem vindos, a uma religião que salva!
O caríssimo leitor chegado a este ponto pode estar se perguntando o que significa, afinal, “ser religioso”! Em sentido lato, professar princípios de determinada religião; isso nada lhe garante, a priori! Contudo, pode também significar vivenciar intensamente a mensagem de determinada Confissão religiosa e levá-lo a ser uma excelente pessoa e a “não ter neste mundo morada permanente”! Então sim! Estará contrariando a expressão inicial!
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina
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