O número absoluto de católicos cai. O fervor aumenta. As igrejas pentecostais consolidam seu discurso, muitas vezes calcado na filosofia do ''descarrego''. Funcionaria ou não? Em entrevista à FOLHA, o historiador, mestre em Sociologia e Teologia e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Alfredo dos Santos Oliva, fala das peculiaridades de cada manifestação e do crescimento de uma nova vertente: os seguidores da religião ''self service''.

Como se delineia o campo religioso no Brasil?
O que percebemos, nas últimas décadas, foi o declínio do número de pessoas que se auto-identificam como católicas. O último Censo traz cifras de por volta de 74% da população brasileira se auto-identificando como católica.

Pode-se dizer, então, que houve um ''resfriamento'' do catolicismo?
Não. Apesar desse declínio no percentual de católicos. Pelo contrário, houve um ''esquentamento'', pois tem crescido o número de pessoas que aderem ao Movimento de Renovação Carismática, no interior do Catolicismo Romano. Então, o que existe atualmente no Brasil é uma grande massa de pessoas identificadas como católicas nominais.

Católicas nominais?
Isso. Em função do ataque de outras religiões que concorrem com o catolicismo, o próprio catolicismo tem reagido a isso e conseguido aumentar o fervor de seus fiéis. Diminui-se a massa de pessoas, o número absoluto, que aderem ao catolicismo, mas aumenta-se o número de católicos praticantes. O Brasil ainda é o maior rebanho católico do mundo.

E a proporção católicos x protestantes?
O declínio do número absoluto de católicos acontece na mesma proporção que cresce o que o Censo chama genericamente de igrejas evangélicas. Quando a gente detalha que igrejas evangélicas são essas que crescem, percebemos que as igrejas protestantes tradicionais têm uma tendência a estagnação e as igrejas petencostais têm crescido mais. A porcentagem total de evangélicos está em torno de 15%. O principal agente a tirar fiéis do catolicismo tem sido o pentecostalismo. Conclui-se, então, que não existe diversificação religiosa no Brasil. O cristianismo é altamente hegemônico.

Hoje muito se fala, também, dos ''sem religião''...
Sim. Os ''sem religião'' de hoje não nos mostram que necessariamente tenha aumentado o número de ateus ou agnósticos. Se antes tínhamos menos de 1%, nos anos 70, hoje estamos na casa de 8%. Os ''sem religião'' crescem mais que qualquer fenômeno religioso no Brasil.

Há uma explicação para isso?
Várias. Com o passar do tempo, as pessoas perdem a vergonha de dizer que não têm religião alguma, ou que são ateus ou agnósticos. Há 50 anos, era extremamente constrangedor a pessoa vir a público dizer isso. Contudo, a hipótese mais provável é aquela que as pessoas mantêm suas experiências religiosas, mas fora do âmbito das instituições religiosas. É um processo de destradicionalização da religião, o chamado processo de religião ''self service''. Analisando isso, podemos dizer que quase a totalidade da população brasileira continua profundamente religiosa.

O fervor continua aí, mas e o mal, como ele é apresentado aos fiéis?
Meu foco de pesquisa tem sido o neopentecostalismo, que são as igrejas que têm trabalhado o universo das aflições, a ação diabólica é associada a tudo aquilo que estabelece obstáculos à vida bem-sucedida. O convite é sempre para as pessoas serem submetidas a seções de ''descarrego''. Não há pesquisas quanto à efetividade, não há números sobre isso. O que as igrejas têm feito, com sucesso, é mostrar as histórias de sucesso. O insucesso não ganha tanta visibilidade. O bom marketing funciona. A igreja católica, por sua vez, não traz a questão da possessão, tratando tais casos como muito raros. Isso abre espaço para as igrejas que anunciam a ação demoníaca e trabalham sobre isso.

Serviço:
Estão abertas inscrições no curso ''Deus e o Diabo no Imaginário Cristão'', que começa dia 15 de setembro. Informações pelo (43) 3371-4398.

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