Admiro os ingleses, tão lógicos, objetivos, diretos. Eles não lançam mão desses rebuscamentos pernósticos e obtusos de linguagem para expressar o óbvio. Por isso, li com prazer a entrevista das Páginas Amarelas da última ''Veja'' com o jornalista e historiador inglês Paul Johnson, autor de várias obras publicadas sobre religião.
Ao ser perguntado se as explicações para o antiamericanismo dos muçulmanos, expresso nos ataques ao World Trade Center e ao Pentágono, decorria de um ódio religioso à modernidade simbolizada pelos Estados Unidos, ou se era resultado das ações concretas dos americanos no Oriente Médio, Johnson foi taxativo: ''Não é a segunda, definitivamente. As fontes do antiamericanismo exibido estão sem dúvida ligadas à natureza da religião islâmica''. Conforme também o historiador inglês, o islamismo estaria ''ainda mergulhado na Idade Média''. Portanto, percebe-se a partir dessas afirmações, que existe uma explosiva mistura de religião, política e ressentimento no ato bárbaro de terrorismo ocorrido em 11 de setembro.
Na sua teoria do ressentimento, Friedrich Nietzche considera o que chama de ''revolta dos escravos morais'', no fundo da qual estariam sentimentos recalcados de vingança dos ''desprivilegiados'' em dotes naturais ou oportunidades de vida. Ressentidos, eles partiriam para a religião como afirmação possível diante dos ''privilegiados''. Levando-se em conta essa interessante teoria, sou tentada a afirmar que o ataque aos símbolos americanos teve a marca do fanatismo religioso-psicótico que repousa no ressentimento.
No caso da religião católica, observe-se que a intolerância e o fanatismo também já deixaram suas marcas na história através de inumeráveis ''guerras santas'', como as havidas nas Cruzadas, no extermínio aos hereges, no longo e tenebroso período da Nova Inquisição Espanhola, na extinção das civilizações indígenas feitas nas colônias espanholas e portuguesas em colaboração com os colonizadores. Só mais recentemente a solidariedade eclesiástica ao ressentimento dos ''escravos morais'' se manifestou, considerando-se que a Igreja foi durante séculos expressão de poderio político e econômico, junto ou acima dos poderosos, e não propriamente a porta-voz dos ''desprivilegiados''.
Presencia-se, pois, na atualidade, onde o poder espiritual e temporal da Igreja já não é o mesmo, alguns dos seus setores se posicionando estrategicamente ao lado dos ''ressentidos''. Entre esses setores estão a Teologia da Libertação, de inspiração marxista, parte do episcopado da CNBB, numerosas pastorais, enfim, uma considerável porção do clero. Desse modo, a Igreja continua se imiscuindo no fazer político do País e, para tanto, baseia-se estrategicamente no recalque dos ''escravos morais''.
Isso pode explicar a atitude de padres e bispos que, exatamente como muitos dos representantes de nossa intelligentzia, são contra o terrorismo mas o justificam no caso dos Estados Unidos, considerado como culpado sem absolvição pelos sofrimentos infligidos aos ''desprivilegiados''. Para exorcizar os males do mundo, os representantes da Igreja pedem paz, esquecendo-se que nesse caso a ''paz armada'' dos americanos se destina ao combate do terrorismo e não a um país ou a um povo específico. E seria preciso compreender que sem essa ''paz armada'' não haverá paz no mundo, pois toda a humanidade está à mercê do genocídio a ser perpetrado quando menos se espera por devotos homicidas.
Portanto, o que se vê são segmentos da Igreja Católica interferindo politicamente no Brasil a partir da teoria do ressentimento. Isto é feito em colaboração estreita com certas fações partidárias que, como o Islã, ainda não saíram da Idade Média. Através do antiamericanismo fundamentalista, é como se os eclesiásticos nos dissessem, procurando nos envolver numa suposta ética da solidariedade dos ''desprivilegiados'': ''No fundo no fundo, você também é um pouco PT, Partido do Taleban''.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é escritora, socióloga e professora universitária em Londrina
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