Por religião devemos entender religação. Que é a reconexão com a nossa realidade essencial, a sintonização com a nossa origem primeira, o permanente estado de compreensão acerca desta verdade. A palavra passou a significar crença, prática de um culto, que difere do sentido metafísico que ela encerra e que é o entendimento de que somos ligados ao Grande Princípio. O ser individual, ao penetrar na fisicalidade, sentiu a ilusão do isolamento, porém guarda em sua memória transcendente o registro de sua natureza divina. Se existem diferentes religiões em que os homens se aninham, religião não é um substantivo, mas uma condição; é o estado do indivíduo de compreender-se em comunhão com o que ele denomina Deus - e que deve ser entendido como a macro-consciência universal, ou qualquer nome semelhante que se queira lhe dar.
Religião transformou-se em agrupamento, em partido religioso, um diferente do outro segundo a concepção de cada um desses segmentos. Por isso que as religiões podem fazer política da forma que lhes aprouver, porque não se configura aí um suposto choque entre as denominadas ''coisas sagradas'' e as ''coisas temporais''. As religiões (ou igrejas) não são mais que sociedades de pessoas, cada qual com seus sistemas moral e dogmático e com seus ritos. Neste período de eleições, não há, então, porque discutir a presença ou não de padres e pastores disputando cargos eletivos, porque eles são cidadãos comuns. Integram um colegiado, assim como os médicos se agrupam em uma sociedade, os advogados, os educadores, as classes no geral. Toda a profissão que se exerce é um sacerdócio, não há uma mais divina que outra.
Mesmo que as igrejas fossem santuários do pleno conhecimento, ainda assim não haveria incompatibilidade delas com a política. Deus (da forma que cada qual o concebe) também faz política, porque ele faz todas as coisas, eis que é todas as coisas e é também o homem. Alguém contraporá que o pregador se vale do púlpito para induzir os fiéis a uma ação política, como a do voto dirigido. Mas não fazem isso também as associações classistas? O que está na Terra é da Terra. Deus não se importa, pois deu rédeas soltas ao homem para ele fazer o que bem entenda. Ao final, todos serão os seus eleitos - embora os políticos, certamente, ficarão por mais tempo em sua lista de suplentes... As igrejas são também corporações de cunho partidário-religioso e com estatutos. Se elas houvessem compreendido o sentido de religião, não seriam tantas, mas uma apenas, que certamente não se abrigaria em templos mas no íntimo de cada um.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina

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