Religião e poder
Há uma questão comum a todas as religiões, que se torna fonte de inúmeros problemas e, em muitos casos, tragédias. Todas querem ser grandes e de preferência abarcar a maioria absoluta dos seres humanos. Há dentro da própria religião algo, que nem sempre esteve no bojo inicial do seu fundador, e que muitos chamam genericamente de missão; no fundo, não passa da sua caricatura, que é o proselitismo. A ideia de que o mundo seria perfeito e poderia até acabar, quando todos professassem determinada fé, é tão antiga quanto as religiões existentes! Por uma questão básica e elementar: considera-se erroneamente, que a religião salva o ser humano e que a pertença a ela, resolve todos os problemas com a vitória definitiva do mal!
No que diz respeito à religião dominante no Ocidente, o Cristianismo, esse erro foi cometido ao longo da história e em muitos casos, certas denominações o cometem hoje inclusive a Católica! Se perguntassem a um padre no século XV, quando o mundo estaria pronto para receber a segunda vinda de Cristo, ele responderia sem titubear, que seria no momento em que todos os humanos fossem batizados e professassem com a boca a fé cristã! E assim, a cruz e a espada atravessaram oceanos e continentes numa parceria, que hoje nos constrange.
Estamos com dois mil anos de cristianismo. A agricultura surgiu há dez mil anos no máximo e o ser humano existe na terra há menos de duzentos mil. Uma boa parte das guerras do período do bronze até hoje foi por motivos religiosos. Sempre uns querendo se afirmar sobre os outros. No entanto, se observarmos com atenção os textos do Novo Testamento, principalmente Mt 13 verificamos que pelo menos o Cristianismo, não tem na sua origem essa "síndrome". Os seguidores de Jesus devem ser fermento na massa e não ter medo de ser uma pequenina semente. Ora, a ideia de que algum dia haja uma coincidência entre o fermento e a massa não está presente nesse texto. Portanto, o desejo por vezes neurótico de que todos professem a mesma fé, tendo levado no passado a grosseiros erros, está mais para proselitismo do que para missão.
O coração dos homens precisa ser fecundado pelos valores que sublinhem o bem, o belo, a paz, a tolerância e a vida em primeiro lugar. Para os cristãos, são os valores assinalados no Evangelho de Jesus de Nazaré. Em outras religiões, existem as suas fontes. O mundo seria bem melhor se os ensinamentos do papa Francisco, do Dalai Lama e de outros líderes religiosos sérios, fossem levados em conta. Nenhuma religião que se preze, prega o domínio do homem sobre o homem ou o culto ao dinheiro e aos bens materiais em geral. A verdadeira religião sempre será um incômodo para os desvios civilizatórios que ponham em risco a dignidade do ser humano. O poder ou a identificação com ele, jamais serão a tônica de qualquer religião boa.
Não sabemos quantos anos durará a civilização ocidental que nos embalou no último milênio. Sabemos que ela dará lugar a outras. É inevitável e inexorável.
A religião cristã esteve na base desta civilização até ontem. Hoje o divórcio pode ainda não ser de direito! Mas já o é de fato! Os valores que a Europa assumiu nas últimas décadas e com ela, outros países, não correspondem mais aos que a formaram após o feudalismo. De novo, portanto, o fermento e não a massa! Sem medo e sem nostalgia das épocas áureas em que quase todos estavam na barca de Pedro. A guerra hoje é interna às religiões! Também elas precisam se reconstruir ou se reinventar! O papa Francisco não tem feito outra coisa desde que chegou!
Outras denominações passam pelo mesmo processo e as que não tiverem coragem, ficarão perdidas na sua própria caricatura! O resgate da espiritualidade é de suma importância para acompanhar a evolução do próprio homem. Ele avança cientifica e tecnologicamente, mas não poderá jamais prescindir da sua ligação com o transcendente. As principais perguntas de quem sou e para onde vou, o manterão harmônico rodando sobre seu próprio eixo, mas, como satélite, dançando graciosamente em torno do seu criador. A religião boa o ajudará nesta odisseia chamada vida humana.
MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina
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