Imagem ilustrativa da imagem RELIGIÃO - ‘Republicanizar a República’
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Em todo o mundo, religiões são cotidianamente discriminadas por adeptos de outros grupos e excluídas das políticas públicas de Estado. Os principais alvos dos enfrentamentos costumam ser aquelas de ancestralidades africanas e indígenas, por vezes acusadas de práticas "demoníacas". Para discutir o assunto, a FOLHA entrevistou o professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Alexandro Dantas Trindade. Segundo ele, é preciso adotar medidas que contribuam para diferenciar a esfera religiosa da esfera da política, como forma de preservar o direito de todos manifestarem sua fé, sem, contudo, interferir nas demais garantias individuais.

O governo da Rússia recentemente colocou em seu ponto de mira as testemunhas de Jeová e pediu à Justiça que proibisse toda a atividade daquela organização religiosa. O mesmo fato ocorreu anteriormente com os mórmons. O senhor acompanhou essa questão?
Não teria como falar nada a respeito da Rússia, primeiro porque não sei como foi o processo. Mas o governo de Angola, por exemplo, já proibiu a Universal do Reino de Deus de atuar e Moçambique vai pelo mesmo caminho. Soube pela imprensa que se referia à lavagem de dinheiro e outras formas de proselitismo que essas igrejas usavam, o que, de certa maneira, causou um mal-estar na população e em alguns meios políticos.

Em que contexto represálias por parte também do Estado se encaixam? São fruto de um preconceito ou intolerância religiosa?
Não é um fenômeno novo. Na modernidade, porém, sobretudo da metade do século 20 para cá, até por conta de vários processos econômicos de perda de referenciais, estabilidade etc, ele tem ganhado uma importância maior. Há um processo global – aquilo que o (Max) Weber (sociólogo alemão) queria, de reencantamento do mundo. Com o avanço da ciência, a crença no progresso, uma ideia de aperfeiçoamento das instituições e da própria humanidade, evidentemente houve uma racionalização das sociedades capitalistas. A esfera religiosa havia eu não diria declinado, mas no ponto de vista cotidiano das pessoas ocupava uma importância menor. No entanto, nem todas essas promessas da modernidade foram alcançadas. Nisso é agravado também um clima de falta de perspectivas a longo prazo. Então, a esfera religiosa passa a adquirir status maior, até por conta do fato de que as religiões criam identidades – muitas vezes trans classistas. Ou seja, independentemente da classe e da renda, as pessoas se reconhecem através de uma religião. E isso também explica uma série de eventos, de movimentos, que se fazem em nome das religiões.

Quais seriam esses principais movimentos?
O caso mais extremo é que as religiões são cada vez mais normativas. Até a perda de fieis da Igreja Católica no Brasil não representou uma perda do catolicismo, mas o crescimento das religiões pentecostais. Uma parte dos católicos tentou reevangelizar, o que justifica a força de fenômenos como a Renovação Carismática. Outra coisa é que historicamente o protestantismo no Brasil tem se valido de cultos afrodescendentes. Dentro de templos evangélicos, é comum trazer personagens e entidades do candomblé e da umbanda, que eles caracterizam como "coisas do demônio". Atribuem toda carga negativa a pessoas que são dessas religiões, como se fosse algo do mal. Com isso, fornecem uma suposta cura do passado regresso. Essas religiões neopentecostais se baseiam na esfera da perversão, tentando converter. Tudo aquilo que a pessoa fez se torna negativo e o positivo é justamente pertencer a essa outra comunidade.

E onde entra a questão da discriminação em nome da religião?
Quando você pergunta sobre discriminação religiosa, tem que diferenciar aquilo que muitos estados praticam, que é perseguir fieis de certas religiões. O exemplo norte-americano é bastante rico. Boa parte das comunidades anglicanas foi expulsa da Inglaterra em busca de uma terra prometida. E há o tipo de discriminação praticado por adeptos de algumas religiões contra outras. Existe um mercado da fé e esse mercado – inclusive em termos sociológicos - opera da mesma forma que empresas para conquistar seus clientes. Essa analogia entre religião e mercado não sou eu que estou fazendo, e sim o Weber. Por mais que as religiões possam ser vistas como uma forma de encantamento do mundo, há também aquilo que ele chama de desencantamento do mundo, evidentemente o processo de racionalização, onde as religiões ou igrejas se tornam instituições e têm contabilidade, aparato hierárquico, tanto no que diz respeito ao dogma como no que diz respeito à operacionalização. O que se vê no Brasil é uma intensa disputa por fieis. O recrudescimento das igrejas pentecostais vem suprir a ausência do catolicismo ou de outras religiões; aquilo que elas não conseguem oferecer aos seus fieis: ideia de comunidade, de pertence, uma espécie de segurança.

Que tipo de consequência essa disputa traz para a sociedade como um todo?
Na modernidade, há um conjunto de direitos que tornou muito mais complexas as relações. Movimentos de equiparação de direitos entre homens e mulheres, entre negros ou que cobram do Estado que não descriminalize o aborto acabaram se tornando também religiosos. A ideia de reforço da família, de perseguir, por exemplo, professores que na sala de aula visam justamente incentivar o senso crítico dos alunos. Se você pegar o (projeto) Escola sem Partido, tem um fundamento religioso que discrimina e faz apologia de uma ideia de família. Se a gente olhar os documentos lançados, vai ver diversos fundamentos religiosos. É uma forma também de proselitismo. No afã deles combaterem supostas ideologias de esquerda, estão pregando sua própria ideologia.

É um fenômeno típico do Brasil ou no resto do mundo é parecido?
Eu diria que é muito interessante, embora preocupante também, o fato de que grupos de extrema direita dos Estados Unidos têm tido repercussão mundial. Há instituições que têm investido neles para incentivar pautas conservadoras, como a proibição do aborto, a criminalização, a perseguição a qualquer movimento LGBT ou forma de sexualidade que seja contrária à heteronormatividade. Existe um sincronismo entre essas pautas conservadoras norte-americanas e o que a gente vê no Brasil.

Como resolver essa questão?
Isso seria uma pauta de uma reforma política. Eu vejo como extremamente complicado os neopentecostais lançarem candidatos a deputado federal e a vereadores. Essas pessoas têm palanque já garantido, nem precisam fazer campanha porque os fieis fazem. No mínimo é uma concorrência desleal. O fenômeno do Eduardo Cunha é muito demonstrativo. Ele encheu o Maracanã e se colocou como candidato de Deus. A gente sabe muito bem que isso não se justifica, nem só em termo de pautas conservadoras, mas de uma série de questões. A intolerância religiosa gera outros fenômenos, de intolerância ao outro, e esse outro sendo tanto católico como praticante do candomblé, da umbanda, um LGBT, um afrodescendente.... Nossa Constituição é laica. Entretanto, temos percebido que, ao longo da primeira metade do século 20, a Igreja Católica desempenhou papel importante na propagação de temas religiosos encobertos em pautas políticas e que, mais contemporaneamente, desde a década de 90, as igrejas evangélicas estão assumindo esse papel, não necessariamente de uma forma coordenada. Nem toda a bancada evangélica pensa da mesma forma, mas há uma tendência muito forte e coisas muito preocupantes, como vereadores punidos por não querer ler a Bíblia no plenário. Isso é uma inversão absurda. Eles deveriam ser punidos por querer ler a Bíblia no plenário, que é um lugar laico.

Essa defesa não pode ser vista como uma espécie de condenação à religião?
Não é uma condenação à religião. Muito pelo contrário. É um fenômeno normal e necessário da sociedade. Tem de haver diferenciação entre a esfera religiosa e a esfera da política. Não tem bancada umbandista, mas tem bancada da Bíblia. Uma pessoa que sai do mercado financeiro não pode ir para o Ministério da Fazenda; tem uma quarentena. Penso que o mesmo poderia acontecer com as religiões de modo geral. Um pastor não pode simplesmente se candidatar tendo a possibilidade de eleger consigo uma grande quantidade de deputados que não tiveram votos necessários. As coligações já pensam nessa matemática. Quantos votos o Eduardo Cunha teve no Rio de Janeiro? Mais de 300 mil, angariados no meio de fieis, para ser a terceira pessoa mais importante do País (foi presidente da Câmara dos Deputados). Tem um voto de cabresto, um curral eleitoral muito garantido. Penso que republicanizar a República implica também em relaicizar o Estado.

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