De 1983 a 1991, o cardeal Dom Geraldo Majella Agnello, 76 anos, foi Arcebispo de Londrina. Do Norte do Paraná ele foi direto para o Vaticano, onde se tornou, nomeado pelo Papa João Paulo II, secretário da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Em 1999, Dom Geraldo foi nomeado Arcebispo Primaz do Brasil, assumindo a Arquidiocese de Salvador (BA). Dois anos depois veio a nomeação para Cardeal e, em 2003, a eleição para presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Uma das vozes mais respeitadas dentro da Igreja Católica, o ex-arcebispo de Londrina chegou a ter seu nome cogitado pela imprensa internacional para ser Papa, no conclave de 2005, do qual ele participou e que elegeu Bento XVI como sucessor de João Paulo II.

Em Londrina para presidir uma cerimônia de ordenação sacerdotal, ele atendeu à FOLHA depois da solenidade, que durou mais de duas horas, e de enfrentar uma longa viagem de Roma até o Paraná.

Quando o senhor saiu de Londrina, em 1991, imaginava que assumiria tantas responsabilidades?
Saí daqui, em primeiro lugar, com muita surpresa. Fui avisado por telefone. Ninguém me perguntou se eu queria ir. Mas ao mesmo tempo foi um motivo para agradecer a Deus pelo tempo que aqui fiquei. Foi muito bom trabalhar junto do Papa João Paulo II. Ali eu pude ter contato com o mundo inteiro e fiz amizade com muita gente. Porém, nunca deixei de lembrar da minha origem e de cada lugar por onde passei. Lá em Roma pude conhecer de perto todos os bispos do Brasil, pois eles me procuravam. Dessa forma, quando voltei ao nosso país, indo para Salvador, fui eleito presidente da CNBB.

O senhor fez em Londrina a primeira ordenação sacerdotal do ano da arquidiocese. Isso mostra que há uma crise vocacional na Igreja?
Aqui no Brasil nós não passamos por uma crise vocacional comparável à de outros países, pois já tínhamos historicamente um número reduzido de presbíteros. Mas, ao mesmo tempo, começamos a estruturar uma pastoral vocacional. Isso fez com que, organizando-nos, preparando os seminários e dando uma atenção especial à formação, tivéssemos vocações. Hoje temos um crescimento, mas não podemos dizer que cobre as nossas necessidades.

Então o senhor vê essa situação com otimismo?
Sim. Levamos em conta que as famílias já não são mais tão numerosas. Por isso, a Igreja tem que pensar e nós temos que trabalhar com a ajuda dos leigos. Os padres não podem ser exclusivistas e fazer tudo. A organização da Igreja não depende exclusivamente dos padres, mas também dos leigos.

O senhor tem abordado a temática da violência em suas pregações? O que propõe para que as situações de violência diminuam?
De alguns anos para cá estamos diante do fato da globalização, que faz com que todos estejam envolvidos em tudo, mas que não foi feita para distribuir os bens. Os que são pobres estão sempre mais pobres. Falta solidariedade. Não podemos ver a questão sempre do ponto de vista do direito, defendendo o ''eu fiz, eu mereço, eu sofri, eu estudei.'' E aqueles que não tiveram a oportunidade de ter estudo e trabalho? Somos muito egoístas. Aí está a causa profunda de toda essa falta de atenção para os mais necessitados.

Mas o poder público também não tem que fazer a sua parte?
Sim, claro. O governo tem muito dinheiro, mas será que a distribuição é para valer? É preciso distribuir corretamente para que o povo possa crescer tendo educação, saúde, trabalho e dignidade. Em geral, o comportamento de muitos dos nossos políticos não está à altura de representar com fidelidade os seus eleitores.

Como foi a experiência de participar do conclave que elegeu Bento XVI?
Eu tive esta grande satisfação e responsabilidade. Quase todos os cardeais que ali estava estavam participavam da escolha de um Papa pela primeira vez. Foi uma forte emoção, mas a responsabilidade vinha em primeiro lugar.

E se o senhor virar Papa um dia?
Quando completei 75 anos, no ano passado, entreguei e minha renúncia nas mãos do Papa, como todos devemos fazer quando chegamos a essa idade. Agora cabe a ele aceitar. Já tive a resposta de que o Papa recebeu o pedido e, ao seu tempo, dará a resposta; mas não sabemos quando. Até os 80 anos de idade nós, como cardeais, podemos ser votados para Papa em um eventual conclave.

O senhor consegue se imaginar como Papa?
Será que o Espírito Santo não tem outra escolha?

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