Maringá - Acompanhar um culto do missionário Miranda Leal suscita, no mínimo, uma dúvida cruel: se o objetivo é salvar almas ou utilizar os templos em busca de dinheiro. Desde 2000, um ano depois do golpe aplicado nos fiéis da igreja Só o Senhor é Deus, Miranda Leal passou a percorrer municípios atrás de pastores para novas igrejas. Mas é com a Jerusalém de Deus, com sede em Maringá, que o missionário tenta firmar um novo império religioso, apesar da moral combalida pelos processos judiciais, um deles por crime contra o fisco federal pela sonegação de cerca de R$ 8 milhões.
Fundada em março de 2001, a igreja Jerusalém de Deus, exibia no estatuto Miranda Leal como ''Presidente Espiritual'' e a mulher dele, Saline Atie Ramos, companheira em processos e ex-tesoureira da Só o Senhor é Deus, como Secretária Nacional. Um mês depois, naquele mesmo ano, Miranda modificou o cargo e passou a figurar como ''Comandante Espiritual'' do templo.
A alteração mais significativa, porém, feita no estatuto da Jerusalém de Deus ocorreu em junho deste ano. Miranda Leal é agora presidente vitalício e a mulher dele, tesoureira da igreja. Uma análise no estatuto revela o caráter dominador do missionário, o mesmo aliás, que delineou as antigas regras que valiam para a Só o Senhor é Deus, e que foram alteradas pelos atuais dirigentes, assim que Miranda Leal deixou a administração, no final de 1999.
O cargo de Comandante Espiritual, ocupado pelo presidente, não o obriga a consultar nenhum outro membro da diretoria para qualquer tipo de determinação. Mas é no artigo 9º, que trata das atribuições exclusivas do presidente, que estão os ''direitos'' mais significativos na parte financeira da Jerusalém de Deus. Dividido em nove alíneas, o artigo 9º dá ao presidente a atribuição de ''alugar, vender, permutar, fazer concessões de uso e transferir o domínio dos bens de propriedade da igreja.''. Na alínea seguinte, o presidente pode, sempre em conjunto com o tesoureiro, fazer toda a movimentação bancária da igreja, inclusive, ''sacar importâncias que estejam depositadas, sem limite de alçada''. O que em outras palavras significa retirar a quantia que bem entender das contas da Jerusalém de Deus.
A partir da igreja de Maringá, Miranda Leal abriu outros templos em 15 municípios do Paraná. Fotos expostas na entrada da igreja, mostram ainda a presença da Jerusalém de Deus em cidades no interior de São Paulo, Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Procurado pela reportagem da Folha para falar sobre o crescimento da Jerusalém de Deus, da saída da Só o Senhor é Deus e de seus objetivos atuais, Miranda Leal se recusou a dar entrevista. O missionário confirmou apenas, que de fato está inaugurando novas igrejas e que não pretende parar.
Durante o culto realizado na última sexta-feira, dia em que o missionário aproveita para gravar testemunhos de fiéis que serão levados aos programas que ele mantém no rádio e na televisão, o missionário contou que em alguns municípios, como de Sarandi e em Campinas (SP), os templos estão em sede própria. O missionário, que se auto-intitula ''Apóstolo da Fé'', pede aos fiéis maior esforço na doação de ofertas para a construção da sede nacional da Jerusalém de Deus em Maringá. ''Estamos ainda em um templo alugado'', disse Miranda Leal.
No culto é fácil perceber a presença de antigos fiéis do missionário, no período em que estava na Só o Senhor é Deus. São pessoas, em sua maioria, idosos humildes que esperam de Miranda Leal as revelações de cura dadas no final de todos os cultos. Foi por meio das revelações, aliás, que o missionário ficou conhecido na comunidade e originou em 1976 a Só o Senhor é Deus, que no final da década de 90 tinha três mil templos espalhados pelo Brasil e países da América Latina, com mais de 2,5 milhões de fiéis.

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