O duelo entre o bem e o mal é tão antigo quanto a história da humanidade. O embate, que causa polêmica e curiosidade, também aflora medo na maioria das pessoas que estão lotando os templos religiosos. Tudo para se livrar do mal.

É o que defende Alfredo dos Santos Oliva, mestre em teologia, sociologia e doutor em história. Para o pesquisador, as igrejas que enfatizam o mal atraem um número maior de fiéis.

Em entrevista à FOLHA, ele explica porque isso acontece e critica os líderes que mostram publicamente o poder que exercem sobre o mal. ''Jesus Cristo fazia exorcismo com discrição'', afirma Oliva que é autor do livro ''A história do diabo no Brasil''.

Muitas igrejas atraem seus fiéis falando do mal. Existe uma explicação para isso?
As igrejas que enfatizam bastante a questão do mal conseguem atrair um número maior de fiéis. É como se as pessoas não fossem simplesmente atraídas por Deus, pelo sagrado ou para a experiência religiosa. A atração para Deus muitas vezes está relacionada a existência do maligno.

Por que isso acontece?
Por vários motivos. Percebo que, no caso específico do neopentecostalismo brasileiro, a presença e a insistência do mal, além de criar medo e instabilidade, também serve para uma exibição pública que demonstra poder sobre a força maligna. Muitos líderes estão o tempo todo monstrando publicamente o poder que eles têm de dominar o mal.

E demonstrar poder sobre a força maligna chama a atenção das pessoas...
Pela curiosidade e por convencê-las de que aqueles líderes têm habilidades religiosas especiais. A gente vê momentos chamativos em muitas igrejas hoje em dia, como a sessão do descarrego. O mal exerce fascínio pelo medo e pela curiosidade de ver pessoas exercendo autoridade sobre esse mundo maligno.

O senhor concorda em combater o mal com exibição pública como acontece em muitas igrejas?
Não gosto desse tipo de exibição em que se coloca pessoas endemoniadas ou supostamente possuídas em um palco e se chama a atenção para isso. A minha referência é a pessoa de Jesus Cristo que fazia exorcismo com discrição. Os líderes religiosos não deveriam menosprezar a existência do maligno, mas não precisariam transformar isso em uma estratégia de marketing que acaba amedrontando as pessoas com exibições públicas e espetaculares.

Todas as religiões têm a mesma visão do mal?
Entender e explicar exatamente o que é o mal varia de religião para religião, mas todas elas têm alguma explicação para o fenômeno. A tradição cristã diz que existe um ser sobrenatural maligno que é fruto da criação de Deus, mas não foi criado por Ele como um ser maligno. Essa figura tem o poder de causar sofrimento na vida das pessoas. Uma visão mais ortodoxa não identifica o mal somente como a ação de seres sobrenaturais malignos, mas também à questões ligadas à natureza humana. As igrejas neopentecostais tendem a identificar o mal como um problema fundamentalmente causado por seres espirituais malignos. É uma explicação unilateral. Se a pessoa estiver deprimida já é uma ação demoníaca.

E qual a influência do mal na vida da pessoa?
Depende do ponto de vista. Para uma igreja neopentecostal tem um poder absoluto. Embora não se diga que o diabo é todo poderoso, para essas pessoas, o status do demônio é igual ao de Deus. Isso é questionável e discutível. No âmbito do cristianismo, existe um mal que pode causar problemas para as pessoas, mas o poder dele é bastante limitado.

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